193: o que dizer ao ligar — e o que o trote custa

193: o que dizer ao ligar — e o que o trote custa

Existe um número de telefone que qualquer criança brasileira aprende antes de aprender o próprio endereço: 193.

O que quase ninguém aprende é o que acontece do outro lado da linha — e é exatamente por isso que tanta gente liga mal, informa mal, e às vezes liga para brincar. Este texto é o manual que deveria existir: o que dizer, em que ordem, e o que a lei reserva para quem usa o número de emergência como diversão.

O que acontece quando você liga

Central de operações dos bombeiros: o atendente do 193 diante dos monitores de despacho

Do outro lado do 193 há uma central de operações — em muitos estados chamada de COBOM, Centro de Operações de Bombeiros Militares. O atendente que atende sua ligação não é um telefonista: é um militar treinado em triagem de emergência, e as perguntas que ele faz seguem um roteiro que existe por um motivo.

Enquanto você fala, ele já está classificando a ocorrência, definindo qual viatura sai — e de qual quartel. A viatura certa saindo do lugar certo na primeira tentativa é a diferença que o bom atendimento telefônico produz. Informação errada ou incompleta significa recurso errado no endereço errado, e o relógio de uma emergência não perdoa: como já mostramos, os primeiros cinco minutos decidem.

As quatro informações, na ordem

Quando a emergência é sua, a adrenalina atrapalha. Grave a sequência:

1. O que está acontecendo. “Incêndio em apartamento”, “acidente de carro com pessoa presa”, “criança se afogando”. Uma frase. O tipo de ocorrência define o tipo de viatura.

2. Onde. Endereço completo — rua, número, bairro, cidade — e um ponto de referência. Em área rural ou estrada, quilômetro e sentido. Se não souber o endereço, descreva o que vê: “em frente ao supermercado X, na avenida que desce para o terminal”.

3. Vítimas. Há? Quantas? Estão conscientes? Presas? Isso muda o número de viaturas e aciona apoio médico.

4. Quem é você. Nome e telefone. Se a guarnição não encontrar o local, é para você que a central liga.

E a regra de ouro: só desligue quando o atendente mandar. Ele pode precisar de mais detalhes — e, em muitos casos, pode orientar primeiros socorros pelo telefone enquanto a viatura está a caminho.

O custo real do trote

Agora, o outro lado da estatística.

O Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina divulgou que, das cerca de 760 mil ligações recebidas pelo 193 num único ano, 13,8% foram classificadas como trotes. Mais de cem mil chamadas falsas — num estado só.

Em uma das regiões, a sede do 2º Batalhão registrou o recorde: 22,6% das chamadas eram trote. Mais de uma em cada cinco. E o caso extremo dá a dimensão do problema: uma adolescente de 15 anos ligou 758 vezes no mesmo dia para a central.

Em Manaus, levantamento divulgado pela imprensa local a partir de dados do CBMAM apontou mais de 56 mil trotes em 2025 — uma média superior a 150 por dia.

O que esses números significam na prática: cada trote ocupa uma linha e um atendente. Se a brincadeira evolui para o despacho de viatura, ocupa também uma guarnição inteira, que deixa de estar disponível para a ocorrência real que pode estar acontecendo na mesma hora, no mesmo bairro. Trote não é uma ligação inútil. É uma emergência verdadeira esperando na fila.

O que a lei diz — com número de artigo

Duas normas alcançam o trote ao 193, e as duas estão em vigor há décadas.

A primeira é o art. 41 da Lei das Contravenções Penais (Decreto-Lei nº 3.688/1941):

“Provocar alarma, anunciando desastre ou perigo inexistente, ou praticar qualquer ato capaz de produzir pânico ou tumulto: Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa.”

É a descrição exata do trote: anunciar desastre ou perigo que não existe.

A segunda é o art. 340 do Código Penal, a comunicação falsa de crime ou contravenção:

“Provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado: Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.”

Se a mentira mobiliza a autoridade — a viatura sai, a guarnição é empenhada —, o enquadramento se agrava. E quando o autor é menor de idade, a responsabilidade civil pelos custos da mobilização pode alcançar os pais.

O enquadramento de cada caso concreto é decisão da autoridade competente, não deste texto. O que está escrito acima é o que consta da lei.

O que ensinar em casa

O trote típico não é de adulto — é de criança e adolescente, muitas vezes sem noção da consequência. As corporações fazem campanhas permanentes, mas a primeira instrução vem de casa. Três coisas que resolvem a maior parte:

  1. Ensine o 193 como ferramenta, não como tabu. Criança que sabe para que serve o número — e que já treinou dizer o próprio endereço — liga certo na emergência real e não liga por brincadeira.
  2. Conte o custo. “Enquanto o bombeiro atende sua brincadeira, alguém que precisa não consegue falar” é um argumento que criança entende.
  3. Celular antigo liga para emergência. Mesmo sem chip, aparelhos conseguem chamar números de emergência — se o aparelho velho vira brinquedo, esse detalhe vira problema.

A preparação da família para emergências — que inclui saber acionar o socorro — já rendeu um texto próprio: a família do bombeiro está preparada?.

Referências

  • Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei das Contravenções Penais), art. 41. Texto no Planalto.
  • Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), art. 340. Texto no Planalto.
  • CBMSC — “Quase 14% das ligações recebidas pelo CBMSC são trotes”: 760 mil ligações no ano-base (2023), 13,8% de trotes, recorde regional de 22,6%. Página institucional.
  • CBMAM — mais de 56 mil trotes em 2025 em Manaus, conforme divulgado pela imprensa local a partir de dados da corporação. Dado de imprensa, não confirmado diretamente com a assessoria.

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Texto informativo, verificado contra as fontes citadas em 16 de agosto de 2026. Estatísticas de trote variam por corporação e ano-base; os dados citados têm a origem e o grau de confiança indicados. Não constitui orientação jurídica.

Perguntas Frequentes

P: Qual é o número do Corpo de Bombeiros no Brasil?
193. É o número único de emergência dos Corpos de Bombeiros Militares em todo o território nacional, gratuito, disponível 24 horas e acessível de qualquer telefone fixo ou celular, mesmo sem créditos.
P: O que devo informar ao ligar para o 193?
Quatro coisas, nesta ordem: o que está acontecendo, o endereço mais preciso possível com ponto de referência, se há vítimas e quantas, e seu nome e telefone para contato. Só desligue quando o atendente disser que pode.
P: Trote para os bombeiros é crime?
Provocar alarme anunciando desastre ou perigo inexistente é contravenção penal prevista no art. 41 da Lei das Contravenções Penais, com pena de prisão simples de 15 dias a 6 meses ou multa. Se a comunicação falsa provoca a ação da autoridade relatando crime ou contravenção que não ocorreu, aplica-se o art. 340 do Código Penal, com detenção de 1 a 6 meses ou multa.
P: Ligar para o 193 é de graça?
Sim. A ligação é gratuita de qualquer telefone, fixo ou celular, inclusive sem créditos ou sem chip de operadora com sinal disponível para emergência.
P: Quando ligar para o 193, o 192 ou o 190?
193 é o Corpo de Bombeiros: incêndio, resgate, acidente com vítima presa, afogamento, produtos perigosos e emergências em geral. 192 é o SAMU: emergência clínica de saúde sem necessidade de resgate. 190 é a Polícia Militar: crime em andamento. Na dúvida entre 193 e 192, ligue para qualquer um — as centrais se acionam mutuamente.

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