O fogo já saiu pela janela: o que muda na busca, segundo as 10 casas que o FSRI queimou
Casa térrea, madrugada, fogo já saindo pela janela da frente. A guarnição desce da viatura e, nos primeiros trinta segundos, três decisões precisam ser tomadas ao mesmo tempo: onde entra a linha, quem faz a busca e por onde se ventila. A ordem dessas três coisas é o que separa uma busca bem-sucedida de uma busca que piora o ambiente onde a vítima está.
Em 12 de março de 2026, o Fire Safety Research Institute — braço de pesquisa do UL Research Institutes — publicou a quarta parte do estudo sobre táticas de busca e salvamento em residências térreas unifamiliares. A Parte IV acrescenta três novas considerações táticas às nove já publicadas nas etapas anteriores. Elas tratam exatamente dessas três decisões.
Até onde apuramos, nada disso existe em português.
O que foi queimado
Foram dez experimentos em escala real, em estruturas construídas especificamente para o estudo. Cada uma era uma residência térrea unifamiliar totalmente mobiliada, com quatro quartos, dois banheiros e cozinha integrada à sala de estar.
Dois detalhes da montagem importam mais do que parecem.
O primeiro é a mobília completa. Não se trata de compartimento vazio com um sofá no canto: o combustível estava distribuído como está numa casa de verdade, que é o que produz o comportamento de fumaça e calor que se quer medir.
O segundo é que as casas tinham sistema de climatização em operação durante os experimentos, justamente para estudar como o equipamento movimenta fumaça e calor pela residência. É uma variável que praticamente não aparece na doutrina, e que muda o caminho que a fumaça faz até os cômodos onde não há fogo.
A instrumentação mediu temperatura dos gases, concentração de gases, fluxo de calor, pressão e velocidade dos gases em várias alturas, em todos os cômodos. As variáveis manipuladas foram o momento e o local das ações de busca, de supressão e de ventilação.
As três considerações táticas

TC 10 — supressão por fora e por dentro ao mesmo tempo
“Provided sufficient resources, upon arrival of a fully developed fire with extension to the exterior, consider conducting simultaneous execution of exterior and interior suppression operations.”
Em português: havendo efetivo suficiente, e na chegada a um incêndio plenamente desenvolvido com extensão para o exterior, considerar a execução simultânea de operações de supressão exterior e interior.
Repare na quantidade de condições empilhadas nessa frase. São três, e nenhuma é decorativa: efetivo suficiente, fogo plenamente desenvolvido, extensão pelo exterior. A recomendação não é “jogue água por fora sempre que der”. É uma consideração para um cenário delimitado, em que o fogo já venceu a edificação e existe gente bastante para fazer as duas coisas sem esvaziar nenhuma das duas frentes.
Vale registrar o que a formulação carrega de implícito: a preocupação clássica de que a água aplicada de fora empurraria fogo e produtos de combustão para cima de quem está dentro não se confirmou como regra geral nas condições medidas. A ciência do fogo avançou, e o que mudou foi a delimitação de quando cada tática se aplica — não o cuidado com quem está no interior.
TC 11 — isolar antes de ventilar
“Consideration should be given to locally ventilate compartments remote from the fire area as soon as possible. Pre-suppression, this would include isolation of the compartment prior to ventilation.”
Em português: considerar a ventilação local dos compartimentos distantes da área de fogo o mais cedo possível — e, antes da supressão, isso inclui isolar o compartimento antes de ventilá-lo.
Essa é a consideração de maior valor imediato para quem faz busca, e é também a mais fácil de aplicar pela metade. A primeira metade — ventilar cedo o cômodo distante do fogo — é intuitiva e todo mundo quer fazer. A segunda metade — fechar a porta antes de abrir a janela — é a que muda o resultado.

Um cômodo remoto ventilado sem isolamento vira um caminho de saída para os gases que estão vindo do fogo. Ventilado com isolamento, ele vira uma bolha com condições melhores para a vítima que está lá dentro. É a mesma janela, a mesma equipe e o mesmo minuto: o que muda é a porta.
TC 12 — ventilação hidráulica imediatamente após a extinção
“Immediately post-suppression, consider conducting hydraulic ventilation to increase the rate at which combustion gases exhaust from the structure.”
Em português: imediatamente após a supressão, considerar a ventilação hidráulica para aumentar a velocidade com que os gases de combustão deixam a estrutura.
O momento tratado aqui é o mais negligenciado do serviço. Fogo apagado, adrenalina caindo, e o ambiente ainda cheio de gases parados — que é exatamente quando as máscaras costumam sair. A consideração dá função tática a uma ação que muita gente executa por hábito, e reforça, por outro caminho, o argumento de manter a proteção respiratória durante o rescaldo.
O que este estudo não é
Não é norma e não é protocolo. São considerações táticas, no sentido literal do termo: material para quem escreve doutrina e para quem discute emprego na fração. Nada aqui substitui o procedimento operacional padrão da corporação nem a ordem de quem comanda a cena.
As casas não são brasileiras. Residência térrea norte-americana é, em regra, estrutura leve em madeira, com forro e revestimentos que se comportam de maneira diferente da alvenaria com laje que predomina no Brasil. E o sistema de climatização central em operação, que é variável do experimento, não é a realidade da maior parte das casas brasileiras.
Três considerações, não doze. A Parte IV acrescenta as TCs 10, 11 e 12. As nove anteriores vêm das etapas anteriores do mesmo estudo, e quem for usar isso em instrução precisa ler o conjunto, não só o trecho novo.
Não há bombeiro no experimento. O que se mediu foi o comportamento do incêndio e o efeito das ações sobre o ambiente, com instrumentação. Desempenho humano, fadiga e tempo real de execução são outra discussão.
A ponte brasileira
Se a casa não é a nossa, o cenário é.
Um trabalho publicado na Revista FLAMMAE, do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, caracterizou os incêndios com mortos e feridos em Belo Horizonte com base nos registros do CBMMG entre 2020 e 2024. Foram identificadas 3.391 ocorrências de incêndio em edificações, das quais 64,25% — 2.179 — em habitações unifamiliares ou multifamiliares.
Em 256 dessas ocorrências houve vítimas mortas ou feridas, totalizando 363 vítimas, 14 delas fatais. E há um dado que fala direto com quem faz busca: 44,35% dos eventos com vítima se concentraram entre 20h e 06h — a faixa em que a casa está ocupada, as pessoas estão dormindo e o efetivo de serviço é o que é.
A ponte, portanto, não é de tipologia construtiva. É de perfil de ocupação: o incêndio que mais mata no Brasil urbano é o residencial, à noite, com gente dentro. É precisamente o cenário que o FSRI passou quatro etapas de estudo instrumentando.
Onde estudar de graça
O FSRI mantém um curso online gratuito sobre táticas de busca e salvamento, atualizado em 14 de abril de 2026 para incorporar os achados mais recentes. A atualização inclui fichas de exercício, pensadas para treinamento de guarnição.
O material é em inglês, o que é uma barreira real. Mas as três considerações acima cabem numa instrução de vinte minutos no pátio, com uma planta baixa desenhada no quadro e três perguntas: quem entra, quem isola, quem ventila.
Referências
- Fire Safety Research Institute / UL Research Institutes. New Report: Analysis of Search and Rescue Tactics in Single-Story, Single-Family Homes (Part IV). Publicado em 12/03/2026.
- Fire Safety Research Institute. Updated Firefighting Search & Rescue Training. Publicado em 14/04/2026.
- SANTOS, J.; CORRÊA, C.; VON KRÜGER, P. G. Incêndios com mortos e feridos em Belo Horizonte: caracterização e análise. Revista FLAMMAE (CBMPE), v. 12, n. 37, I Edição Especial, 2026. ISSN 2359-4829. Artigo premiado em 1º lugar (apresentação oral) no CONABOM 2025.
Perguntas Frequentes
P: O estudo do FSRI diz que jato por fora não empurra fogo para dentro?
P: Posso ventilar o quarto onde a vítima pode estar assim que chego?
P: Esse estudo vale para casa brasileira?
P: Onde estudar isso de graça?
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