O extintor sobreviveu ao incêndio. O pó lá dentro, nem tanto

O extintor sobreviveu ao incêndio. O pó lá dentro, nem tanto

O galpão queimou. Depois do rescaldo, alguém recolhe o extintor da parede — casco inteiro, manômetro na faixa verde, peso aparentemente normal. Ele volta para a parede ou vai para a empresa de manutenção?

Pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CPIn/CBMSC), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, abriram um desses extintores em laboratório e analisaram o pó. O trabalho foi publicado na Revista FLAMMAE, do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, na edição de janeiro a junho de 2026.

O resultado é o tipo de coisa que muda uma resposta que a maioria das pessoas dá no automático.

O que é o pó ABC, e por que ele apaga

O pó químico seco do tipo ABC é composto majoritariamente por fosfato monoamônico — MAP, na sigla em inglês. Ele não apaga principalmente por abafamento nem por resfriamento: apaga porque, ao se decompor pelo calor, libera espécies químicas que interferem nas reações em cadeia da combustão.

Isso significa que a eficácia do pó depende de ele chegar ao fogo ainda não decomposto. Um pó que já sofreu parte dessa transformação térmica antes do uso tem menos material disponível para fazer o trabalho na hora certa.

É exatamente essa a pergunta do estudo.

O que foi analisado

O material era um extintor de pó ABC recuperado de um incêndio real e um extintor novo do mesmo fabricante, usado como referência.

O extintor avariado tinha o casco metálico estruturalmente íntegro, mas o esguicho plástico estava quase completamente fundido — evidência inequívoca de exposição a calor intenso. Nem o tempo de exposição às chamas nem a temperatura atingida puderam ser estimados.

Há um detalhe do procedimento que merece registro, porque é bom sinal de rigor: até a abertura, o cilindro permaneceu sob responsabilidade da Polícia Científica de Santa Catarina, preservando a cadeia de custódia, e a abertura ocorreu em laboratório na presença de peritos.

O pó foi coletado em três regiões do cilindro:

  • Região I — crosta, no topo
  • Região II — central
  • Região III — fundo

As amostras foram analisadas por calorimetria exploratória diferencial (DSC) e análise termogravimétrica (TGA), em duplicata, com aquecimento de 40 °C a 430 °C.

Vale um parêntese sobre a crosta. Na parte superior do cilindro o pó não estava mais solto: havia aglomerados de formatos variados, de pequenas pedras a estruturas planares parecidas com discos. Um desses aglomerados, deixado sobre um vidro de relógio no laboratório, ficou fortemente aderido ao vidro depois de poucos dias.

Os números

A medida central é a entalpia de decomposição — quanta energia o pó ainda tem para trocar ao se decompor. Quanto menor, mais do material já se transformou antes.

Gráfico de barras da entalpia de decomposição: 137,40 J/g no pó novo, 49,13 no fundo, 32,70 na região central e 15,51 na crosta do topo

AmostraEntalpia de decomposição (J·g⁻¹)
Pó de referência (extintor novo)137,40 ± 1,69
Região I — crosta (topo)15,51 ± 1,29
Região II — central32,70 ± 1,00
Região III — fundo49,13 ± 1,82

Na crosta, a queda é de cerca de 88% em relação ao extintor novo. Na região central, de aproximadamente 76%. No fundo, de cerca de 64%.

Nota sobre os percentuais. As reduções acima foram calculadas por nós sobre as médias da Tabela 2 do artigo, e arredondadas: 88,7% na crosta, 76,2% na região central e 64,2% no fundo. O texto do trabalho discute as leituras individuais, e não as médias, e chega a valores próximos para as duas primeiras regiões — 88% e 76,9%, que conferem. Para o fundo, porém, o artigo registra “aproximadamente 35% menor” para uma amostra de 47,84 J·g⁻¹: esse valor corresponde a cerca de 35% do controle, isto é, uma redução de cerca de 65%. Tratamos como lapso de redação, e usamos a aritmética sobre os dados publicados. A conclusão do estudo não muda — o fundo é a região menos degradada das três.

O TGA reforça o quadro. A amostra de referência perdeu cerca de 70% da massa ao longo do aquecimento; a crosta terminou com resíduo de aproximadamente 94% — ou seja, quase nada restou para se decompor. Esse resíduo elevado é compatível com processos de condensação do fosfato durante a exposição às chamas, formando polifosfatos e metafosfatos de alta estabilidade térmica. Em linguagem de quartel: o material virou outra coisa, e essa outra coisa não faz o serviço.

O gradiente: por que só a parte de cima

O achado mais elegante do trabalho não é o número isolado — é o gradiente.

Corte do cilindro do extintor mostrando o gradiente térmico vertical: crosta no topo 88% abaixo do pó novo, região central 76% abaixo e fundo 64% abaixo

Topo, meio e fundo apresentaram três níveis diferentes de degradação, sempre na mesma ordem. Isso indica que o aquecimento do cilindro não foi homogêneo: a região inferior ficou parcialmente protegida do fluxo térmico direto das chamas, e a superior levou a pior.

A consequência prática é desconfortável. Um extintor pode estar com o pó parcialmente comprometido em uma faixa do cilindro e razoavelmente preservado em outra, sem que nada disso apareça no manômetro, no peso ou na inspeção visual do casco.

O que este estudo não é

Aqui é obrigatório frear, porque a manchete fácil seria falsa.

Não foi medida perda de poder de extinção. Ninguém descarregou esse extintor contra um fogo padronizado para comparar desempenho. O que se mediu foi comportamento térmico do pó em bancada. A formulação dos próprios autores é que a degradação parcial do MAP sugere possível redução do potencial de supressão de chamas. “Sugere possível” é a redação deles, e é a redação correta.

É um extintor, não uma amostra estatística. Um cilindro exposto e um novo, do mesmo fabricante, com análises em duplicata. Os autores classificam o trabalho como exploratório e são explícitos ao dizer que estudos complementares são necessários. Qualquer generalização para “todo extintor que pegou calor” extrapola o que foi feito.

Não se sabe a que esse extintor foi submetido. Tempo de exposição e temperatura atingida são desconhecidos. Não é possível dizer a partir de quantos minutos, ou de qual temperatura, o problema começa.

Não há afirmação sobre extintor sem sinal externo. Neste caso havia sinal, e bem visível: o esguicho fundido. O estudo não avaliou equipamentos aparentemente intactos.

O que já está escrito na regra brasileira

O artigo faz uma observação sobre o arcabouço nacional que vale reproduzir.

No Brasil, extintores comercializados e os serviços de inspeção técnica, manutenção e recarga estão sujeitos a requisitos de avaliação da conformidade estabelecidos pelas Portarias Inmetro nº 218/2021 e nº 58/2022. Esses regulamentos tratam de certificação, inspeção e manutenção — mas, como observam os autores, não contemplam critérios específicos para avaliar alterações físico-químicas do agente extintor decorrentes de exposição prévia ao calor intenso.

Há ainda um detalhe histórico interessante. A ABNT NBR 12962, na versão de 1998, trazia condições ambientais específicas para a abertura do extintor — temperatura ambiente entre 18 °C e 30 °C, umidade relativa máxima de 55%, ausência de correntes de ar que provocassem perda de partículas finas. Essa condição não consta da versão de 2016. A hipótese levantada no artigo é que a revisão tenha priorizado a definição dos níveis de manutenção, das responsabilidades do técnico e das frequências de inspeção, deixando detalhes operacionais para os manuais dos fabricantes.

O que fazer com isso

Para quem responde ocorrência, a leitura prática é curta e cabe em duas frases.

Extintor encontrado em cena de incêndio, com sinal de exposição térmica, não é ferramenta de rescaldo — e, quando houver investigação, é elemento da cena, com o cuidado de custódia que isso implica. Foi assim que este estudo existiu: alguém preservou o cilindro em vez de descartá-lo.

Para quem cuida de prevenção, brigada ou patrimônio, a conclusão é dos autores, e vale citá-la sem intermediação:

“extintores expostos ao fogo ou a condições térmicas potencialmente capazes de promover alterações no agente extintor devem ser criteriosamente avaliados antes da reutilização ou recarga, reforçando a importância de inspeções técnicas após incêndios ou armazenamento em condições térmicas inadequadas.”

O ponto sobre armazenamento é o que mais escapa. Não é preciso um incêndio para expor um extintor a calor: um cilindro que passa anos ao sol, dentro de um contêiner metálico ou encostado numa parede que esquenta, está em condição térmica que ninguém inspeciona porque não houve evento nenhum para inspecionar.

Referências

Perguntas Frequentes

P: Extintor que pegou fogo perde 88% do poder de apagar?
Não é isso que foi medido. O que caiu cerca de 88% foi a entalpia de decomposição do pó na região superior do cilindro, medida por calorimetria. É um indicador de que parte do fosfato monoamônico já havia se transformado pelo calor. Os autores concluem que isso sugere possível redução do potencial de supressão de chamas — não quantificam perda de eficácia em combate.
P: O extintor exposto a incêndio pode ser recarregado?
A conclusão dos autores é que extintores expostos ao fogo ou a condições térmicas capazes de alterar o agente extintor devem ser criteriosamente avaliados antes da reutilização ou recarga. A decisão é da empresa de manutenção habilitada, dentro dos requisitos de conformidade do Inmetro, e não do usuário.
P: Dá para saber por fora se o pó degradou?
O estudo não testou isso. No caso analisado havia sinal externo evidente: o casco estava estruturalmente íntegro, mas o esguicho plástico estava quase completamente fundido. Não há no artigo qualquer afirmação sobre extintores sem sinal visível de exposição.
P: Quantos extintores foram analisados?
Um extintor exposto a incêndio real e um extintor novo do mesmo fabricante, usado como referência. As análises foram feitas em duplicata, e o pó do extintor avariado foi coletado em três regiões do cilindro. Os próprios autores classificam o trabalho como exploratório.

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