Fadiga por compaixão: o que é e o que 555 bombeiros revelaram

Fadiga por compaixão: o que é e o que 555 bombeiros revelaram

“Você vê o sofrimento, você impacta. Não tem jeito. A gente não é uma máquina.”

A frase é de um bombeiro entrevistado para um estudo publicado em 27 de julho de 2026 na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz. Entre fevereiro de 2024 e janeiro de 2025, 555 bombeiros de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais responderam a um questionário sobre o que o serviço faz com quem atende gente em sofrimento. Os quatro estados entraram na pesquisa pelo histórico recente de grandes desastres.

A exposição apareceu logo na primeira tabela. 84,8% disseram atender pessoas em sofrimento de “algumas vezes” a “quase sempre”. Na mesma faixa, 82,7% atendem gente em risco de vida e 77,8% atendem vítimas de eventos traumáticos, como acidente, assalto e agressão. Para 55,3%, tem caso que deixa impressionado.

O desgaste que vem desse contato tem nome: fadiga por compaixão. E o estudo mediu também o outro lado da balança.

O que é fadiga por compaixão

O conceito vem do pesquisador Charles Figley e descreve o desgaste emocional de quem se envolve, por empatia e por muito tempo, com o sofrimento dos outros. Os autores do estudo trabalham com dois polos.

No polo negativo ficam duas coisas. A primeira é o burnout: exaustão emocional, frustração, irritabilidade. A segunda é o estresse traumático secundário, o medo e o trauma que a pessoa absorve de forma indireta, pelo contato com quem passou pela tragédia. O bombeiro não sofreu o acidente. Mas leva um pedaço dele para casa.

No polo positivo fica a satisfação por compaixão: o sentido de realização em ajudar, a certeza de ter feito diferença na hora que importava. Os autores descrevem esse polo como restaurador da saúde psíquica.

O burnout é só uma das partes do lado negativo. Num comunicado de 28 de maio de 2019 sobre a CID-11, a Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como fenômeno ocupacional, resultado do estresse crônico do trabalho que não foi bem administrado, e não o classifica como condição médica. O transtorno de estresse pós-traumático, o TEPT, fica em outra prateleira: é diagnóstico clínico, feito por profissional de saúde. Já tratamos dele em PTSD no bombeiro brasileiro: como reconhecer, como agir, onde buscar ajuda.

Quem são os 555 bombeiros do estudo

O estudo é da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), com pesquisadoras da Universidade do Porto, em Portugal. Participaram bombeiros do serviço operacional e do administrativo, com pelo menos seis meses na função: 84,3% homens, idade média de 38 anos, 65,4% com filhos. Oito em cada dez trabalhavam em turnos alternados, sem turno fixo.

A maioria, 80,9%, era militar. Os outros 19,1% não eram.

Todos responderam à escala ProQOL-5, um questionário de qualidade de vida profissional que mede três coisas: satisfação por compaixão, burnout e estresse traumático secundário. Dos 555, 66 também deram entrevista sobre as ocorrências que mais marcaram, os treinamentos e o efeito do trabalho no corpo e na cabeça.

O resultado: a balança pende para o lado bom

Balança com os resultados de 555 bombeiros. Prato da satisfação por compaixão (realização em ajudar): 48,8% em nível alto e 48,1% moderado. Prato da fadiga por compaixão: burnout (exaustão, irritação) 32,6% moderado e 0,5% alto; estresse traumático secundário (trauma absorvido de quem sofreu) 24% moderado e 0,5% alto

Na satisfação por compaixão, 48,8% ficaram no nível alto e 48,1% no moderado. Só 3,1% marcaram nível baixo. Quando a pergunta foi direta, se a pessoa se sente satisfeita por ser capaz de ajudar os outros, 85,8% responderam “muitas vezes” ou “quase sempre”.

No outro prato, o burnout ficou baixo para 66,8% e alto para 0,5%. São três pessoas em 555. O estresse traumático secundário ficou baixo para 75,5% e alto, de novo, para 0,5%, também três pessoas.

Um dos entrevistados resumiu o lado bom assim: “É uma satisfação imensurável você poder ajudar as pessoas e poder fazer a diferença na vida das pessoas.”

Mas tem o meio da tabela: 32,6% ficaram com burnout moderado e 24% com estresse traumático secundário moderado. E 17,3% disseram se sentir exaustos por causa do trabalho “muitas vezes”. O cansaço existe, e em um terço da amostra já aparece em nível moderado.

Os próprios autores apontam os limites. O estudo é transversal: fotografa um momento e não acompanha a pessoa ao longo dos anos. A amostra inclui equipes com possível treinamento para enfrentar desastres, e os resultados não podem ser generalizados para outras equipes do país. E quem estava afastado, por qualquer motivo, durante a coleta ficou de fora. Os autores chamam isso de viés típico dos estudos sobre saúde do trabalhador.

O que pesa do outro lado: horas por semana e anos de serviço

O estudo cruzou os resultados com o perfil de cada participante. Na tabela de correlações, duas variáveis do trabalho apareceram com mais força.

A primeira é a carga horária semanal. Quanto mais horas por semana, maior tendeu a ser o burnout (correlação de 0,263) e o estresse traumático secundário (0,210), e menor a satisfação por compaixão (correlação negativa, de 0,150).

A segunda é o tempo de serviço como bombeiro. Mais anos de serviço acompanharam burnout (0,225) e estresse traumático secundário (0,267) mais altos. Entre tempo de serviço e satisfação por compaixão, a tabela de correlações do estudo não mostrou relação significativa.

Correlação mostra tendência dentro do grupo. Ela não diz o que vai acontecer com um bombeiro específico, nem aponta uma causa isolada.

Nas entrevistas, o acúmulo aparece em forma de casca. “A gente fica calejado”, contou um bombeiro. “A minha esposa diz que a gente é insensível. Então é um meio de defesa que a gente tem para não se envolver emocionalmente com as coisas, porque se não, não aguenta.” Os autores chamam isso de cinismo, uma das dimensões do burnout: indiferença e distanciamento usados como defesa contra a exposição prolongada.

Outro entrevistado usou a própria reação como termômetro: “Se o grito de uma criança não está me sensibilizando, acho que está na hora de dar uma pausa.”

O artigo também lembra que ocorrências com criança e a perda de colega aparecem, em pesquisas de vários países, como situações que favorecem o estresse traumático secundário.

Sintomas de fadiga por compaixão: o que a família pode perceber

Foi a esposa de um dos entrevistados quem deu nome à casca: insensível. Às vezes quem nota a mudança primeiro é quem está em casa.

Ao burnout, os autores ligam a exaustão, a irritação e essa casca de indiferença e distanciamento. Ao estresse traumático secundário, ligam o esforço para evitar lugares, pessoas e conversas que lembram a ocorrência, e a lembrança que volta sem aviso. Um entrevistado contou que a memória de uma ocorrência às vezes aparece no meio da refeição: “cem por cento a gente não consegue desligar.”

Os autores listam também o que a pressão contínua do serviço pode produzir: agressividade, impulsividade, frieza, ansiedade, tensão, choro, sintomas depressivos e sono ruim. E citam o álcool e outras substâncias usados para aguentar.

Nenhum desses sinais, sozinho, fecha diagnóstico. Os números deste texto descrevem um grupo de 555 pessoas numa pesquisa. Eles não servem de régua para ninguém se avaliar sozinho, nem para avaliar o marido, a esposa ou o colega de guarnição. Quem avalia é profissional de saúde.

O que a família e o colega podem fazer é abrir espaço. Para os profissionais, os autores apontam os primeiros socorros psicológicos como intervenção inicial: uma abordagem que oferece um lugar seguro para a pessoa falar, sem imposição, e entender do que precisa. A campanha do CVV para o Setembro Amarelo de 2026, apresentada no site do CVV em 1º de setembro, vai na mesma linha, com o tema “Escutar é estar presente”.

O guia Meu filho quer ser Bombeiro Militar tem uma parte sobre a rotina de quem serve e de quem espera em casa. O peso invisível das ocorrências também está em Saúde Mental do Bombeiro: Por Trás da Máscara.

Onde buscar ajuda

O caminho começa no serviço de saúde e de psicologia da sua corporação ou num profissional de saúde mental de confiança.

Se a conversa não pode esperar, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, com ligação gratuita, em todo o Brasil. Também atende por chat e por e-mail em cvv.org.br. O atendimento é feito por voluntários, de forma sigilosa, sem julgamento. Se passar pela cabeça a ideia de tirar a própria vida, ligue agora.

Os dois pratos da balança

Dos 555 bombeiros, 271 marcaram satisfação por compaixão alta, 181 marcaram burnout moderado e três marcaram burnout alto.

CVV: 188, 24 horas, ligação gratuita.

Referências

  • VIVIAN, C.; BORGES, E. M. N.; QUEIRÓS, C. M. L.; CORRALO, V. S.; ZUGE, S. S.; SCHOENINGER, M. D.; TRINDADE, L. L. Associação entre fadiga por compaixão e o perfil dos bombeiros que atuam em desastres. Cadernos de Saúde Pública, v. 42, e00230525, 2026. Recebido em 3 nov. 2025, aprovado em 10 abr. 2026, publicado no SciELO em 27 jul. 2026. DOI 10.1590/0102-311XPT230525 · texto completo no SciELO. Dados da Tabela 1 (exposição e níveis da escala), da Tabela 2 (correlações) e dos Quadros 1 e 2 (entrevistas).
  • Organização Mundial da Saúde. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases, 28 maio 2019. who.int.
  • Centro de Valorização da Vida (CVV). Página oficial, com o atendimento pelo 188, chat e e-mail. cvv.org.br, consultada em 23 set. 2026.
  • CVV. Escutar é estar presente, campanha Setembro Amarelo 2026, 1º set. 2026. cvv.org.br/escutar-e-estar-presente.

Conteúdo relacionado: PTSD no bombeiro brasileiro · Saúde Mental do Bombeiro: Por Trás da Máscara · Meu filho quer ser Bombeiro Militar: o guia para a família


Texto informativo, verificado contra o artigo científico e as fontes citadas em 23 de setembro de 2026. Não substitui avaliação nem orientação médica ou psicológica. Em sofrimento, procure o serviço de saúde da sua corporação ou um profissional de saúde mental; o CVV atende pelo 188, 24 horas, com ligação gratuita.

Perguntas Frequentes

P: O que é fadiga por compaixão?
É o desgaste emocional de quem se envolve, por empatia e por muito tempo, com o sofrimento de outras pessoas. O conceito vem do pesquisador Charles Figley. Ela junta o burnout (exaustão, frustração, irritabilidade) e o estresse traumático secundário (medo e trauma absorvidos de forma indireta, pelo contato com quem sofreu). Do outro lado da balança fica a satisfação por compaixão, o sentido de realização em ajudar.
P: Fadiga por compaixão e burnout são a mesma coisa?
Não. O burnout é uma das duas partes da fadiga por compaixão; a outra é o estresse traumático secundário. Na CID-11, a Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como fenômeno ocupacional, ligado ao estresse crônico do trabalho, e não o classifica como condição médica.
P: Quais são os sintomas de fadiga por compaixão no bombeiro?
O estudo não traz uma lista fechada. Ao burnout, os autores ligam a exaustão, a irritabilidade e a casca: indiferença e distanciamento usados como defesa. Ao estresse traumático secundário, ligam o esforço para evitar lugares, pessoas e conversas que lembram a ocorrência e a lembrança que volta sem aviso. Como efeito da pressão contínua do serviço, citam ainda agressividade, frieza, ansiedade, tensão, choro e sono ruim, e tratam o álcool usado para aguentar como sinal de sofrimento. Sinal não fecha diagnóstico: quem avalia é profissional de saúde.
P: O que o estudo com 555 bombeiros encontrou?
Satisfação por compaixão alta em 48,8% e moderada em 48,1%. Burnout baixo em 66,8%, moderado em 32,6% e alto em 0,5%. Estresse traumático secundário baixo em 75,5%, moderado em 24% e alto em 0,5%. Mais horas de trabalho por semana e mais anos de serviço acompanharam burnout e estresse traumático secundário um pouco mais altos.
P: Onde o bombeiro pode buscar ajuda?
No serviço de saúde e de psicologia da própria corporação ou com um profissional de saúde mental. Para conversar agora, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, com ligação gratuita em todo o Brasil, e também por chat e e-mail em cvv.org.br.

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