Joelma e Andraus, 50 anos depois — as duas tragédias que reescreveram a doutrina brasileira de incêndio em altura
A história moderna do bombeiro brasileiro tem dois pontos de virada: 24 de fevereiro de 1972 e 1º de fevereiro de 1974. Em menos de dois anos, dois incêndios em edifícios altos no centro de São Paulo mataram mais de duzentas pessoas, mobilizaram a opinião pública nacional e, pela primeira vez na história brasileira, forçaram o país a tratar segurança contra incêndio como questão de Estado.
Antes do Edifício Andraus e do Edifício Joelma, o Brasil regulamentava incêndio com um patchwork de códigos municipais, normas dispersas e ausência de marcos federais. Depois deles, surgiu a engenharia brasileira de segurança contra incêndio que conhecemos hoje — com normas ABNT, instruções técnicas estaduais, profissionais habilitados, estruturas de fiscalização. Cinquenta anos depois, vale revisitar o que aconteceu, o que se aprendeu e o que ainda não está plenamente resolvido.
24 de fevereiro de 1972 — o Andraus
Era uma quinta-feira de tarde. O Edifício Andraus, na Avenida São João esquina com a Rua Pedro Américo, em São Paulo, tinha 32 andares e cerca de 115 metros de altura — uma das construções mais altas da capital paulista à época. Hospedava lojas, escritórios e serviços, com lojas das Casas Pirani ocupando andares inferiores. Centenas de pessoas circulavam por ali todos os dias.
Por volta das 16h, uma sobrecarga no sistema elétrico iniciou um princípio de incêndio no 3º andar, no setor que abrigava o departamento de crédito das Casas Pirani. As chamas se espalharam rapidamente para o 2º andar (onde funcionava a alfaiataria da loja) e, encontrando material combustível abundante (mobiliário, papel, madeira de divisórias, tecidos), começaram a subir — pelos vãos de elevadores, pelas escadas, pela fachada. Em minutos, vários andares estavam comprometidos.
A construção do Andraus, típica do início dos anos 1970 brasileiro, tinha um conjunto de fragilidades que se evidenciaram na tragédia:
- Saídas de emergência insuficientes em número e em design
- Falta de compartimentação vertical efetiva (vãos abertos entre andares)
- Materiais combustíveis em revestimento e mobiliário
- Ausência de sistemas ativos modernos (sprinklers, detecção automática)
- Brigada de incêndio interna inexistente ou inadequadamente treinada
Centenas de pessoas se concentraram no telhado, fugindo da fumaça e do calor que subiam dos andares inferiores. O Corpo de Bombeiros de São Paulo chegou rapidamente, mas os recursos disponíveis eram limitados frente à escala do incêndio. O combate foi feito pelo lado de fora, com mangueiras de viaturas de bombeiros, enquanto as pessoas no telhado aguardavam.
O resgate veio do alto. Helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Polícia Militar foram acionados. Em uma operação que entrou para a história — e gerou imagens icônicas que circularam pelo mundo —, dezenas de pessoas foram retiradas do telhado e levadas para áreas seguras. Foi a primeira grande operação de resgate aéreo em incêndio de altura no Brasil.
Os números do Andraus: 16 mortos confirmados em registros oficiais e cerca de 345 feridos. Mais de cem pessoas foram resgatadas pelo telhado via helicóptero — fator decisivo para que o saldo, apesar de massivo, não tenha sido catastroficamente maior. Foi, à época, o pior incêndio em edifício de altura da história brasileira — recorde infeliz que seria superado dois anos depois.
O Andraus deixou três aprendizados imediatos
1. Resgate aéreo é viável e crítico em altura. A operação da FAB demonstrou que helicópteros podiam atuar como meio de resgate em edifícios altos. A consequência regulatória foi a exigência subsequente de heliponto obrigatório em edifícios altos — exigência que entrou em códigos municipais, especialmente no eixo Rio-São Paulo (depois flexibilizada/revogada em parte).
2. Compartimentação interna salva vidas. A propagação rápida do fogo entre andares evidenciou que edifícios altos sem compartimentação efetiva são, na prática, chaminés verticais. A doutrina internacional já apontava nessa direção; o Andraus tornou o argumento brasileiro inadiável.
3. Bombeiro precisa de equipamento e doutrina específicos para altura. As limitações operacionais expostas no Andraus — frente à escala do incêndio — alimentaram, nas duas décadas seguintes, a estruturação de unidades especializadas em altura nos CBMs maiores.
Mas o impacto foi parcial. A regulamentação permaneceu fragmentada. Os edifícios em construção continuaram seguindo padrões problemáticos. A lição maior ainda estava por vir.
1º de fevereiro de 1974 — o Joelma
Menos de dois anos depois, na manhã chuvosa de uma sexta-feira, em outra esquina do centro de São Paulo — Praça da Bandeira —, o Edifício Joelma começou a queimar. Concluído em 1971, tinha 25 andares (os sete primeiros eram de garagens). Funcionava com escritórios, principalmente da Crefisul (Banco de Investimento). Algumas centenas de pessoas trabalhavam ali todos os dias.
Por volta das 8h45, um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado no 12º andar deu início ao incêndio. Investigação concluída em julho de 1974 e encaminhada à Justiça apontaria a Crefisul e a Termoclima — empresa responsável pela manutenção elétrica — como principais responsáveis. As chamas se alastraram rapidamente. O edifício tinha — em medida ainda mais grave que o Andraus — revestimentos internos altamente combustíveis (carpetes sintéticos, divisórias de madeira, mobília abundante). Em poucos minutos, o 12º andar inteiro estava em chamas. O fogo subiu pela fachada, pelas escadas, pelas tubulações.
E aqui veio a parte mais terrível. Ao contrário do Andraus, o Joelma não tinha heliponto. Pessoas que tentaram subir para o telhado se viram em laje sem possibilidade prática de resgate aéreo direto. Pessoas que tentaram descer pela escada encontraram fumaça e calor intoleráveis. Pessoas que ficaram nos andares mais altos foram alcançadas pelo fogo.
E houve um terceiro grupo, cujo destino ficou marcado na memória nacional: pessoas que, diante de fogo se aproximando e impossibilidade de resgate, saltaram dos andares altos. Dezenas de mortes — talvez mais — foram dessa forma.
Quando o fogo foi controlado, o saldo era devastador. Os números variam entre fontes — pesquisa do jornalista Adriano Dolph documenta 181 mortos; outros registros oficiais apontam 187 mortos; estimativas que incluem vítimas tardias e desaparecidos chegam a números próximos de 200. Os feridos passaram de 300.
Foi — em termos de mortes em incêndio em edifício comercial em altura — um dos piores incêndios da história mundial. Em termos brasileiros, foi a tragédia que tornou impossível continuar fingindo que segurança contra incêndio era assunto secundário.
O que o Joelma revelou
A análise técnica do incêndio do Joelma — feita por engenheiros, peritos e bombeiros nas semanas e meses seguintes — identificou um conjunto de falhas em camadas:
1. Saídas de emergência inadequadas. Escadas únicas, sem compartimentação vertical adequada, sem proteção pressurizada contra fumaça. Quando o fogo chegou às escadas, viraram chaminés inoperáveis.
2. Compartimentação ausente. Sem paredes corta-fogo entre andares, sem selagem de aberturas para tubulações, o fogo viajou verticalmente em velocidade impressionante.
3. Materiais altamente combustíveis em revestimento. Carpetes, divisórias, forros — tudo contribuindo para carga combustível massiva.
4. Sem sistemas ativos. Sprinklers não existiam. Detecção automática não existia. Iluminação de emergência não existia adequadamente.
5. Sem brigada treinada. Em edifício comercial com centenas de funcionários, não havia equipe própria treinada para primeira resposta — orientação de evacuação, combate a princípio, comunicação com bombeiros.
6. Sem sinalização. Pessoas em pânico, em fumaça, sem indicadores de saída.
7. Sem heliponto. Diferente do Andraus, sem possibilidade de resgate aéreo direto pelo telhado.
8. Materiais e arquitetura permitidos pelo código de obras vigente. O edifício havia sido construído conforme a regulamentação municipal vigente. A regulamentação era inadequada.
Cada um desses oito pontos virou, nos anos seguintes, alvo de norma brasileira específica.
O que mudou no Brasil pós-Joelma
A magnitude do Joelma — e o fato de ter ocorrido em pleno centro financeiro do país, com cobertura jornalística intensa — produziu pressão política inédita. As mudanças vieram em camadas, ao longo da década seguinte e além:
Primeiras normas brasileiras de SCI
A ABNT começou a desenvolver normas técnicas específicas para segurança contra incêndio em edificações. O CB-24 — Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio foi institucionalizado para coordenar essa produção normativa. As primeiras versões da NBR 9077 (saídas de emergência), da NBR 13434 (sinalização), e de outras normas técnicas brasileiras vieram dessa onda regulatória pós-Joelma.
Códigos de obras municipais reformulados
Os municípios maiores — começando por São Paulo — reformularam seus códigos de obras incorporando exigências de saídas de emergência, sinalização, sistemas ativos, materiais não combustíveis em revestimentos. Edifícios novos passaram a ser construídos com padrões progressivamente melhores.
IT/NT estaduais dos CBMs
Os Corpos de Bombeiros estaduais começaram a estruturar Instruções Técnicas (ITs) próprias, consolidando exigências detalhadas de PSCIP (proteção e segurança contra incêndio e pânico). O CBMSP liderou esse processo, e suas ITs viraram referência nacional. Outros estados seguiram, com ritmos diferentes.
Profissional habilitado
A engenharia brasileira passou a reconhecer profissional habilitado para projeto, execução e fiscalização de PSCIP — papel articulado com o CONFEA/CREA. Surgiu uma especialidade profissional onde antes havia improvisação.
Brigada de incêndio
A figura da brigada de incêndio em estabelecimentos privados foi gradualmente normatizada — culminando, anos mais tarde, na NBR 14276 e na Lei 11.901/2009 (que regula a profissão de bombeiro civil).
Equipamento e doutrina dos CBMs
Os CBMs estaduais, em medida desigual, evoluíram em equipamento (escadas extensivas, viaturas tanque, plataformas) e doutrina (protocolos para incêndio em altura, comando de incidente, accountability) — em grande parte sob impacto direto do trauma institucional do Joelma.
Cinquenta anos depois — onde estamos
A pergunta inevitável: o Brasil de hoje está protegido contra novo Joelma? A resposta é majoritariamente sim, com ressalvas relevantes.
O que melhorou:
- Edifícios novos construídos seguindo NBRs e ITs estaduais têm saídas adequadas, compartimentação, sinalização, sistemas ativos
- Brigadas de incêndio em estabelecimentos com público são exigidas e fiscalizadas
- CBMs operam com equipamento e doutrina muito mais robustos que em 1974
- A Lei 13.425/2017 (Lei Kiss), posterior à tragédia da Boate Kiss em Santa Maria (2013), criou um marco federal mínimo que sustenta a regulamentação estadual
O que ainda preocupa:
- Edifícios antigos — anteriores às normas modernas — seguem em uso, frequentemente sem retrofit completo. Muitos centros urbanos brasileiros têm edifícios de 40-60 anos com características construtivas próximas às do Joelma.
- Fiscalização desigual. Estados e municípios com fiscalização robusta convivem com outros onde a aplicação prática das normas é precária.
- Reformas e mudanças de uso alteram parâmetros previstos no projeto original. Edifício projetado como residencial vira hotel, escritório vira boate — sem revisão completa de PSCIP.
- Cobertura combustível em fachadas — tema que voltou à pauta global após o incêndio da Grenfell Tower em Londres (2017), com 72 mortes — também é preocupação no Brasil em edifícios com revestimento ACM (Aluminum Composite Material) sem adequada classificação ao fogo.
- Incêndios em comunidades e em ocupações irregulares geram tragédias recorrentes, em escala que escapa às normas de PSCIP de edificações regulares.
A lembrança como exercício técnico
Aniversários de tragédias podem servir a dois propósitos. Um é homenagem — necessária, mas insuficiente. O outro é revisão técnica — perguntar, em cada aniversário, o que ainda permanece do problema original, o que se evoluiu, o que recuou. Joelma e Andraus, vistos juntos, são exatamente esse tipo de aprendizado coletivo nacional.
A doutrina brasileira contemporânea de segurança contra incêndio é, em grande parte, filha dessas duas tragédias. Cada vez que um bombeiro vistoria um AVCB, cada vez que um arquiteto projeta saída de emergência conforme NBR 9077, cada vez que um síndico contrata brigada conforme NBR 14276 — está operando em sistema construído sobre o trauma de 1972 e 1974.
Honrar essas mortes é, fundamentalmente, manter o sistema funcionando e evoluindo. Não é poesia — é técnica.
Onde aprofundar
- Lei 13.425/2017 — Lei Geral de Segurança Contra Incêndio — marco federal pós-Boate Kiss, articulado com a herança Joelma
- ABNT NBR 9077 — Saídas de Emergência em Edifícios — norma central que descende diretamente do aprendizado pós-Joelma
- ABNT NBR 14276 — Brigada de Incêndio — institucionaliza a brigada que faltou no Joelma
- ITs do CBMSP — operacionalização técnica detalhada da herança normativa
- CBMSP — corporação que mais evoluiu em decorrência das tragédias
A síntese
Andraus mostrou que a altura é um problema novo. Joelma mostrou que a altura sem norma é uma sentença. O Brasil aprendeu da pior maneira possível, e o sistema que construímos — imperfeito, em evolução, desigual entre regiões — é literalmente filho dessas duas manhãs de fevereiro em São Paulo.
Cinquenta anos é tempo suficiente para esquecer. É exatamente por isso que precisa ser tempo de lembrar — e de garantir que cada AVCB emitido, cada brigada treinada, cada vistoria realizada honre, na prática, as duzentas e tantas vidas que se perderam nas tragédias que reescreveram a engenharia brasileira de segurança contra incêndio.
Fontes consultadas
Dados factuais sobre os incêndios — datas, número de pavimentos, mortos, causa, sequência — foram verificados nas seguintes fontes públicas:
Edifício Andraus (1972)
- Wikipédia (PT) — verbetes “Edifício Andraus” e “Incêndio no Edifício Andraus”
- São Paulo Antiga — “O incêndio do Edifício Andraus”
- Casa do Velho — Folha de São Paulo de 25/02/1972 (capa “A Salvação Veio dos Céus”)
- Resgate Aeromédico — “Os heróis existem — O incêndio do Edifício Andraus”
Edifício Joelma (1974)
- Wikipédia (PT) — verbete “Incêndio no Edifício Joelma”
- Agência Brasil — “Edifício Joelma: 50 anos depois, marcas do incêndio permanecem” (2024)
- Câmara Municipal de São Paulo — “Há 40 anos, Câmara foi hospital para feridos no Joelma”
- O Setor Elétrico — “50 anos da tragédia do Edifício Joelma”
- Pesquisa do jornalista Adriano Dolph (citada na cobertura de aniversário de 50 anos)
Eventuais divergências entre fontes — especialmente em número de mortos do Joelma — são apontadas no texto. A análise sobre a evolução normativa pós-Joelma (NBR 9077, CB-24/ABNT, ITs estaduais, Lei 13.425) tem lastro nas próprias normas e no marco regulatório atual.