PFAS no EPI estrutural — o que mudou desde a IARC reclassificar bombeiro como Grupo 1

Entre 7 e 14 de junho de 2022, a International Agency for Research on Cancer (IARC) — agência da Organização Mundial da Saúde — reuniu 25 cientistas (incluindo 3 especialistas convidados) de 8 países em Lyon, França, para revisar a literatura científica sobre saúde do bombeiro. O resumo da decisão foi publicado em 1º de julho de 2022 no periódico The Lancet Oncology; o monograph completo (Volume 132 da série IARC Monographs) foi publicado em 2023. Quinze anos antes, em 2007, a IARC tinha classificado a exposição ocupacional como bombeiro como Grupo 2Bpossivelmente cancerígena para humanos. Era a classificação intermediária: existe sinal, mas a evidência epidemiológica em humanos é limitada.

A análise de 2022 reorganizou tudo.

A exposição ocupacional como bombeiro foi reclassificada para Grupo 1cancerígena para humanos. É o nível mais alto da hierarquia da IARC. Mesmo grupo do tabaco, asbesto, exposição solar UV, álcool, formaldeído. Só entram no Grupo 1 agentes para os quais há evidência epidemiológica robusta, em humanos, de relação causal estabelecida.

No centro dessa decisão estão duas substâncias: o mesotelioma (com evidência suficiente) e o câncer de bexiga (também evidência suficiente). E no centro da exposição que produz esses cânceres estão substâncias com nome obscuro e presença massiva no que o bombeiro veste todo turno: PFAS — substâncias perfluoroalquiladas, popularmente apelidadas de “químicos eternos” pela enorme persistência ambiental.

Este artigo explica o que são, onde estão, como agem, e — mais importante — o que cada bombeiro pode fazer no seu turno para reduzir a exposição. Não é discurso de palanque. É química aplicada ao seu vestiário.

O que são PFAS

PFAS é a sigla para per- and polyfluoroalkyl substances. É uma família de mais de 14.000 substâncias químicas sintéticas, criadas a partir dos anos 1940, com uma característica em comum: ligações entre carbono e flúor extremamente fortes. Essa força é exatamente o que dá utilidade industrial a esses compostos — eles repelem água, repelem óleo, resistem ao calor, não se degradam com o tempo. E é exatamente o que faz com que sejam tão preocupantes para a saúde humana e para o meio ambiente: eles não se degradam com o tempo, não saem do corpo facilmente e não saem do meio ambiente.

Daí o apelido “químicos eternos” (forever chemicals). Uma vez liberados, ficam por décadas — em rios, lençóis freáticos, sangue humano, tecido de turnout.

Os dois PFAS mais estudados — PFOA (ácido perfluorooctanoico) e PFOS (perfluorooctanossulfonato) — foram associados a múltiplos cânceres em estudos epidemiológicos. Mas mesmo dentro da família PFAS, novas substâncias substitutas continuam sendo desenvolvidas e usadas em produtos de consumo, equipamentos industriais e em EPI bombeiro.

Onde está o PFAS no seu turnout

Aqui está o ponto que mais surpreende quem ouve pela primeira vez: as três camadas do turnout estrutural moderno contêm PFAS, conforme documentado em pesquisa do NIST (National Institute of Standards and Technology) publicada a partir de 2023, com colaboração da IAFF — International Association of Fire Fighters e da NIOSH. As maiores concentrações foram encontradas nas duas camadas externas (outer shell e moisture barrier), com concentrações até 400 vezes superiores ao forro térmico.

Vamos detalhar o sanduíche:

  1. Camada externa (outer shell) — feita tipicamente de aramida (Nomex, Kevlar) ou PBI. O acabamento que dá a essa camada repelência à água e a óleos é, há décadas, uma aplicação de PFAS. Sem o tratamento, a camada externa absorve combustível e calor com muito mais facilidade — e isso era considerado risco maior do que a presença de PFAS no acabamento.
  2. Barreira de umidade (moisture barrier) — membrana intermediária feita de filme polimérico. Em diversas formulações, incorpora PFAS para gerenciar permeabilidade ao vapor sem permitir entrada de água líquida.
  3. Forro térmico (thermal liner) — camada mais interna, em contato indireto com a pele. Em algumas formulações, contém PFAS em tratamentos auxiliares.

Resultado: o bombeiro está literalmente envolvido em uma camisa química onde algumas das substâncias mais persistentes e bioacumulativas do mundo estão a centímetros da pele, durante turnos de 12, 24 ou mais horas, durante anos.

A absorção pode acontecer por três rotas:

  • Via dérmica — contato direto da pele com PFAS, especialmente em regiões de pele fina e/ou suor abundante (pescoço, axilas, virilha, atrás das orelhas)
  • Via inalatória — partículas micro contendo PFAS desprendendo do tecido, especialmente em fogo, calor e atrito
  • Via oral indireta — contato mão-boca após manuseio de turnout sujo, refeições em ambiente contaminado, copos e utensílios em estação onde EPI sujo coexiste com áreas de convívio

A combinação com outros contaminantes do fireground — fuligem, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs), benzeno, formaldeído, dioxinas, asbesto em estruturas antigas — multiplica o risco.

O que a evidência mostra

A reclassificação IARC para Grupo 1 não foi feita com base em PFAS isolado. Foi a soma da evidência sobre a exposição ocupacional como bombeiro como um todo — coquetel químico complexo, exposição crônica, em diversas vias. PFAS é uma peça importante; HAPs, benzeno, asbesto e fuligem são outras.

O que está estabelecido:

  • Evidência suficiente para mesotelioma (em geral pleural, relacionado à exposição a fibras tipo asbesto em estruturas antigas) e câncer de bexiga (relacionado a aminas aromáticas, HAPs e outros carcinógenos urinários)
  • Evidência limitada para câncer de cólon, próstata, testículo, melanoma cutâneo maligno e linfoma não-Hodgkin

Estudo do NIOSH Multi-Center Cohort Study of US Fire Fighters (publicado em fases ao longo da década de 2010) acompanhou cerca de 30 mil bombeiros americanos por décadas e documentou aumentos significativos de incidência e mortalidade em vários cânceres em comparação à população geral. Foi um dos pilares de evidência da reclassificação IARC.

E a IAFF (associação americana dos bombeiros) tem repetidamente publicado a estatística que sintetiza tudo: 66% das mortes em serviço de bombeiros americanos entre 2002 e 2019 foram atribuídas a câncer. Não é mais o fogo direto que mais mata bombeiros — é o que ele deixa no corpo do bombeiro durante anos de exposição.

O que está mudando — equipamento e norma

A indústria e a normatização não estão paradas. Movimentos importantes:

NFPA 1971 (norma do conjunto de proteção estrutural) tem incorporado, em edições recentes, requisitos crescentes sobre limites de PFAS, com cronograma de redução planejado. Há discussão técnica sobre como substituir o tratamento PFAS sem perder repelência crítica que protege contra absorção de combustível e água.

Capuzes balaclavas filtrantes (particulate-blocking hoods) chegaram ao mercado nos últimos cinco anos como resposta à evidência de que o capuz tradicional, sendo de tecido permeável, deixava a pele do pescoço e cabeça absorvendo fuligem e contaminantes em volume desproporcional. Capuzes filtrantes reduzem essa exposição mensuravelmente.

Programas de troca de turnouts mais frequente estão sendo recomendados — múltiplos EPIs por bombeiro, rotação após exposição, vida útil mais curta para peças expostas a fogo intenso.

Nos Estados Unidos, várias legislações estaduais (Massachusetts, Nova York, Califórnia, entre outros) estabelecem limites e prazos para PFAS em turnouts, com obrigação de notificação ao bombeiro.

No Brasil, o assunto começa a entrar na pauta. ABNT NBR 15292 e correlatas — normas brasileiras de proteção individual para combate a incêndio — guardam relação técnica com a NFPA 1971, mas a discussão específica sobre PFAS ainda está em estágio inicial em CBMs e na ABNT. É um espaço onde a doutrina brasileira tende a evoluir nos próximos anos.

Protocolo de redução de exposição — o que cada bombeiro pode fazer agora

Equipamento ideal demora a chegar. Norma demora a mudar. Mas há um protocolo de redução de exposição que independe de equipamento novo e pode ser implementado em qualquer corporação, hoje, por qualquer bombeiro. É baseado em recomendações consolidadas pela IAFF, NFFF, FSRI e USFA.

No incêndio (during operation)

  • Manter SCBA ligado o tempo todo que houver fumaça visível ou calor anormal — incluindo fase de rescaldo, salvamento de bens e checagem final. A maior absorção respiratória acontece exatamente quando se acha que “já passou”.
  • Não abrir o capuz para “respirar um pouco” durante a operação. Aquele ar que parece limpo está cheio de partículas finas e gases tóxicos.

Imediatamente após (gross decon)

  • Lavagem grosseira (gross decon) no local antes de embarcar na viatura: enxaguar o turnout com água em volume razoável (mangueira em jato baixo, esponja, escovagem básica). Remove fuligem visível e parte da contaminação química superficial.
  • Wipes de descontaminação para a pele exposta — rosto, pescoço, mãos, atrás das orelhas, couro cabeludo. Wipes específicos para descontaminação química são preferíveis; na falta, lenços umedecidos limpos servem como medida básica.

Na viatura (de volta à estação)

  • Turnout sujo NÃO entra na cabine. Em viaturas com cabine única, isolar o EPI sujo em saco selado ou compartimento dedicado. Idealmente, cabines duplas (cabine de pessoal separada de carga de EPI) — investimento que vale.
  • Não comer, beber ou fumar com o turnout sujo. As mãos depositam tudo que tocaram no que entra na sua boca.

Na estação

  • Banho imediato após retorno do incêndio. Idealmente em até uma hora. Sabonete neutro, atenção redobrada nas regiões de absorção (pescoço, axilas, virilha, atrás das orelhas, couro cabeludo).
  • Lavagem do capuz após cada exposição a fogo. O capuz é a peça mais crítica de descontaminação rotineira.
  • Lavagem do turnout em máquina específica, separada de roupa de uso comum. Em programa NFPA 1851, há critérios para frequência e técnica de lavagem.
  • Áreas limpas vs. sujas na estação. EPI contaminado não pode coexistir com refeitório, dormitório ou áreas de descanso.
  • Ventilação adequada das áreas onde se manuseia EPI sujo. Garagens com viaturas operando geram exposição passiva contínua.

A longo prazo

  • Exames médicos anuais com foco em rastreamento de cânceres associados — bexiga (urinálise), próstata (PSA), pele (avaliação dermatológica), e demais conforme idade e tempo de serviço. O programa NFPA 1582 estrutura essa avaliação; corporações que ainda não a adotaram em formato robusto devem ser pressionadas a adotar.
  • Documentação de exposições — registrar tipos de incêndio, duração da exposição, equipamentos usados. Em caso futuro de diagnóstico de câncer ocupacional, é prova de nexo causal.
  • Engajamento institucional — discussão com comando sobre programa de descontaminação, aquisição de capuzes filtrantes, cabines duplas, lavagem profissional de EPI. A reclassificação IARC dá mandato técnico inquestionável para essas demandas.

Aplicação ao Brasil — onde estamos

A IARC não emite norma. Mas suas classificações são referência obrigatória em medicina do trabalho, em laudos do INSS, em decisões da Justiça do Trabalho, em PCMSO. Para o bombeiro militar brasileiro diagnosticado com câncer de bexiga ou mesotelioma, citar o IARC Monograph Volume 132 é argumento técnico forte para reconhecimento de nexo causal com a atividade — com implicações em aposentadoria, indenização e cobertura.

Tecnicamente, há corporações brasileiras que já avançaram em programas de descontaminação no fireground (CBMSP, CBMMG, CBMERJ têm iniciativas em diferentes estágios). A maior parte dos CBMs ainda está em fase inicial. É um espaço onde a iniciativa do bombeiro operacional — pressionando comando, documentando, treinando colegas — pode acelerar a institucionalização.

A boa notícia: a redução de exposição funciona, e é mensurável. Estudos do FSRI documentam redução significativa de absorção química quando os protocolos descritos acima são adotados sistematicamente. Não é discurso. É química.

Onde aprofundar

A síntese do que mudou

A IARC, em 2022, fez algo raro: subiu uma classificação para o nível máximo. Para o bombeiro, isso não é diploma de honra — é mandato técnico para mudar como trabalhamos. Os PFAS estão no seu turnout. O coquetel químico do fireground passa pelo seu corpo. A doutrina antiga de “passar a luta de fora”, encolher os ombros e seguir em frente custou a vida de uma geração de bombeiros americanos por câncer ocupacional, em volume maior do que o fogo direto matou.

Tem como reduzir. Funciona. Começa com o capuz lavado, o banho de uma hora, o EPI fora da cabine, a pele descontaminada antes da próxima refeição. Não é luxo. É o ofício adulto.

O fogo passa em uma noite. O PFAS, se você não tomar cuidado, fica com você por décadas.

Fontes consultadas

  • IARCIARC Monographs evaluate the carcinogenicity of occupational exposure as a firefighter, Volume 132 (publicação 2023), comunicado de 1º de julho de 2022 e Q&A — Mono132 (iarc.who.int)
  • The Lancet OncologyCarcinogenicity of occupational exposure as a firefighter (DeMarini et al., 2022)
  • IAFFPFAS and Turnout Gear (iaff.org/pfas/) e Joint Statement Regarding PFAS in Fire Fighter Turnout Gear
  • NISTResearchers Pin Down PFAS Prevalence in Firefighter Gear (2023) e Wear and Tear May Cause Firefighter Gear to Release More ‘Forever Chemicals’ (2024)
  • NIOSH Multi-Center Cohort Study of US Fire Fighters (Daniels et al., 2010s) — coorte de aproximadamente 30 mil bombeiros americanos
  • Firefighter Cancer Support Network — estatísticas IAFF de causas de LODD 2002-2019 (cancer = 66% dos LODDs de carreira; heart disease = 18%)
  • NFPA 1971 — Standard on Protective Ensembles for Structural Fire Fighting (edição vigente 2018, sendo absorvida pela NFPA 1970-2025)