PFAS: O Inimigo Invisível Dentro do Seu EPI

PFAS: O Inimigo Invisível Dentro do Seu EPI

O Equipamento de Proteção Individual (EPI) é a armadura do Bombeiro Militar. É ele que separa o profissional das chamas, do calor e da fumaça. Mas e se essa mesma armadura estiver, silenciosamente, envenenando quem a veste?

Pesquisas recentes revelaram que as barreiras de umidade dos EPIs de combate a incêndio — aquela camada intermediária que impede a passagem de líquidos — contêm PFAS (substâncias per e polifluoroalquílicas), conhecidas internacionalmente como “forever chemicals” — produtos químicos eternos, porque o corpo humano e o meio ambiente não conseguem decompô-los.

O Que São PFAS e Por Que São Perigosas?

PFAS são uma família de mais de 4.700 compostos químicos sintéticos utilizados desde os anos 1950 por suas propriedades de repelência à água, óleo e calor. Estão presentes em panelas antiaderentes, embalagens de fast food, espumas de combate a incêndio (AFFF) e — como agora sabemos — nos EPIs.

Os riscos documentados incluem:

  • Câncer de rim, testículo e tireoide
  • Alterações hormonais e reprodutivas
  • Comprometimento do sistema imunológico
  • Aumento dos níveis de colesterol
  • Danos hepáticos

Para bombeiros, a exposição é dupla: pela pele durante o uso do EPI e pela inalação de partículas durante a manipulação do equipamento.

O Que as Pesquisas Mostram

Programa Piloto de Indiana

Um programa piloto conduzido no estado de Indiana (EUA) demonstrou que o aumento na frequência de descontaminação dos EPIs está diretamente correlacionado com a redução dos níveis de PFAS no sangue dos bombeiros. Em outras palavras: lavar o EPI com mais frequência e de forma adequada reduz a absorção dessas substâncias.

Posicionamento da IAFF e dos Chefes de Bombeiros Metropolitanos

A International Association of Fire Fighters (IAFF) e a Metropolitan Fire Chiefs Association emitiram um comunicado conjunto recomendando precauções imediatas contra a exposição a PFAS, incluindo mudanças no manuseio, armazenamento e limpeza dos EPIs.

Legislação da Califórnia

A Califórnia está na vanguarda regulatória:

  • 2025: limite de 100 ppm de flúor orgânico em EPIs novos
  • 2028: redução para 50 ppm — efetivamente eliminando PFAS dos equipamentos

Equipamento de proteção individual de bombeiro

São Francisco: O Exemplo a Seguir

Em dezembro de 2025, o Corpo de Bombeiros de São Francisco se tornou o maior departamento dos Estados Unidos a substituir completamente seus EPIs por versões livres de PFAS — todos os 1.100 conjuntos foram trocados. O departamento também implementou testes não destrutivos (wipe testing) que permitem avaliar a contaminação dos EPIs sem retirá-los de serviço.

A Realidade Alarmante no Brasil

No Brasil, a consciência sobre PFAS nos EPIs é virtualmente inexistente. A situação é agravada por práticas que maximizam a exposição:

  • EPIs armazenados em dormitórios e alojamentos — contaminando o ambiente onde os bombeiros descansam e dormem
  • Ausência de protocolos de descontaminação grosseira — após incêndios, é comum que o bombeiro simplesmente tire o EPI e o guarde sujo
  • EPIs transportados em veículos particulares — levando contaminantes para dentro de casa
  • Falta de lavagem especializada — muitos CBMs não possuem extratoras industriais para limpeza adequada dos EPIs
  • Nenhuma exigência regulatória sobre PFAS — o Brasil não possui legislação equivalente à da Califórnia

Medidas Imediatas Que Todo Bombeiro Pode Adotar

Mesmo sem mudanças institucionais, há ações individuais que reduzem significativamente a exposição:

  1. Nunca leve o EPI para áreas de convivência — vestiários, dormitórios e refeitórios devem ser zonas livres de EPI
  2. Lave as mãos após manusear o EPI — o contato com luvas e jaqueta transfere PFAS para a pele
  3. Limpe a cabine da viatura após cada incêndio — partículas de fuligem e PFAS se depositam nas superfícies
  4. Realize descontaminação grosseira no local — escovação com água e detergente neutro antes de guardar o EPI
  5. Não seque o EPI ao sol sobre superfícies de contato — use áreas ventiladas e dedicadas
  6. Exija lavagem periódica adequada — com extratoras industriais, conforme recomendação do fabricante

Conclusão

O PFAS é um inimigo que não se vê, não se cheira e não se sente — mas está ali, em cada fibra do EPI que o Bombeiro Militar veste para proteger vidas. A ironia é cruel: o equipamento que protege contra o fogo pode estar causando doenças que matam anos depois.

A proteção do bombeiro não termina quando o fogo se apaga. Começa aí.


Referências