Quanto sobra do soldo: o contracheque real do Bombeiro Militar, desconto por desconto
Toda matéria sobre concurso de Bombeiro Militar publica o mesmo número: o bruto. “Soldado ganha R$ 6.067”, “inicial de R$ 5,9 mil”. É o número do edital, e ele é verdadeiro.
Só que não é o número que cai na conta. E a diferença é grande o suficiente para mudar decisão de família.
Fomos atrás do que ninguém publica. Baixamos a base de dados da folha de pagamento do Estado de Minas Gerais e apuramos as alíquotas reais em 8.805 registros do CBMMG. Depois conferimos o texto das leis de São Paulo. O que segue é o contracheque de verdade.
Por que não existe resposta nacional
Antes dos números, o motivo de este texto ser por estado e não “do Brasil”.
A Lei federal 13.954/2019 mandou aplicar aos militares estaduais a mesma alíquota das Forças Armadas — 10,5% a partir de 2021. Quase todos os estados obedeceram por simetria. O STF derrubou esse dispositivo no Tema 1.177 (RE 1.338.750): fixar a alíquota dos próprios militares é competência do Estado, e a norma federal, nesse ponto, é inconstitucional. Houve modulação, validando as cobranças até 1º de janeiro de 2023.
Com a queda da regra federal, voltam a valer as leis estaduais anteriores. Por isso quem publica “o bombeiro militar paga 10,5%” está repetindo uma regra que o Supremo anulou para os estaduais.
[REGRA] Os descontos variam por estado, e muito. Não existe “o desconto do bombeiro militar” — existe o desconto do seu estado, na sua situação. Este texto mostra dois casos reais para você entender a mecânica e conferir o seu.
Minas Gerais: 11,50%, e não é o que se diz por aí
Circula bastante que o militar mineiro paga 8%. Circula também que paga 10,5%. Os dois estão errados para quem está na ativa.
A alíquota real é 11,50%, e ela vem de duas leis diferentes que se somam:
| Desconto | Alíquota | Base legal |
|---|---|---|
| Previdência (IPSM) | 8% | Lei 10.366/1990, art. 4º |
| Custeio parcial de aposentadoria | 3,5% | Lei 12.278/1996, art. 3º |
| Total do militar da ativa | 11,50% | — |
Esse segundo desconto, o de 3,5%, é o que quase ninguém menciona — e ele só incide sobre quem está na ativa. O militar inativo paga apenas os 8%.
A conferência não foi por dedução: os 11,50% aparecem de forma consistente em 5.388 registros de militares ativos do CBMMG na folha de março de 2026, e em 35.082 da PMMG. Os inativos aparecem com 8,00%, exatamente como a lei prevê.
O contracheque real, posto por posto
Estes são valores da folha oficial de março de 2026 do CBMMG:
| Posto | Bruto | IRRF | Previdência | Líquido |
|---|---|---|---|---|
| Cabo | R$ 8.023,24 | R$ 887,51 | R$ 922,66 | R$ 6.213,07 |
| 2º Sargento | R$ 10.490,62 | R$ 1.644,42 | R$ 1.206,41 | R$ 7.639,79 |
| 1º Sargento | R$ 15.715,33 | R$ 2.910,83 | R$ 1.257,22 | R$ 11.547,28 |
| Subtenente | R$ 17.633,13 | R$ 3.552,45 | R$ 1.410,65 | R$ 12.670,03 |
| 1º Tenente | R$ 14.950,14 | R$ 2.729,76 | R$ 1.719,26 | R$ 10.501,12 |
Repare no Cabo: de R$ 8.023 brutos, chegam R$ 6.213. A diferença de R$ 1.810 é composta por imposto de renda e previdência — e o IRRF, note bem, pesa mais que a previdência.
Um detalhe que fecha a conta e vale registrar: 8.023,24 − 887,51 − 922,66 = 6.213,07, exatamente. Isso confirma que não há nenhum outro desconto compulsório estadual escondido na folha do militar mineiro.
[REGRA] Mas atenção a uma limitação importante desses números: portal de transparência publica apenas os descontos obrigatórios por lei. Consignado, mensalidade de associação, plano odontológico, seguro e pensão alimentícia são tratados como dado privado e não aparecem. O líquido do portal é sempre maior que o líquido que cai na conta. O próprio Portal da Transparência de Minas declara isso nas perguntas frequentes.
Aluno e cadete descontam igual
Uma dúvida comum de quem vai começar o curso de formação: aluno paga? Paga sim, e na mesma alíquota.
Na folha do CBMMG, registros de CADETE aparecem com R$ 949,60 de previdência sobre R$ 8.257,48 — exatamente 11,50%. A base legal é o art. 3º da Lei 10.366/1990, que define como segurado compulsório o militar da ativa; alunos de curso de formação são praças especiais, portanto militares.
Duas notícias que circulam e não são verdade
Os 3% de contribuição para saúde não existem hoje. Eles aparecem no PL 2.239/2024, que também tentaria fixar a previdência em 10,5%. O projeto está aguardando parecer em comissão, com última movimentação em outubro de 2025. Não virou lei.
Hoje, em Minas, não há alíquota de contribuição para saúde — o que existe é coparticipação por uso, prevista no Decreto 48.064/2020. Assistência básica ao militar é gratuita.
Os 10,5% foram derrubados. O Estado passou a descontar essa alíquota por simetria com a Lei federal 13.954/2019, sem lei estadual que a amparasse. O STF, na ADPF 1184 julgada em março de 2025, manteve a Lei 10.366/1990 e seus 8%. O TCE-MG determinou a devolução dos 2,5% cobrados a mais dos veteranos, em seis parcelas a partir da folha de agosto de 2025.
São Paulo: 11% de previdência, mais 2% de saúde
Em São Paulo a lógica é outra, e vale a atenção de quem vai prestar lá — lembrando que o Corpo de Bombeiros paulista é parte da PMESP, então as regras são as mesmas da Polícia Militar.
| Desconto | Alíquota | Base legal |
|---|---|---|
| Previdência militar (ativa) | 11% | LC 1.013/2007, art. 7º |
| Assistência médica (CBPM) | 2% da retribuição-base | Lei 452/1974, art. 31 |
A previdência incide sobre vencimentos, vantagens permanentes e adicionais — ficam de fora diárias, auxílio-transporte, salário-família e auxílio-alimentação.
Duas ressalvas importantes:
A LC 1.354/2020 não se aplica a militares. Aquelas alíquotas progressivas de 11% a 16% que aparecem em muito material de cursinho valem para servidores civis. Militares seguem a LC 1.013/2007.
O desconto de 2% da CBPM é contestado judicialmente. O dispositivo é reiteradamente atacado como não recepcionado pela Constituição de 1988, e o TJSP já declarou a cobrança ilegal em casos concretos, com devolução. Na prática: está na lei e é descontado, mas é matéria discutível.
Há um limite honesto nesta parte: o portal da transparência paulista publica apenas bruto e líquido, sem discriminar os descontos. Então, diferente de Minas, não foi possível confirmar a alíquota na folha real — a base é o texto da lei. Se você é PM ou BM em São Paulo e quiser conferir seu holerite contra isso, o retorno é bem-vindo.
Como conferir o seu
Se você vai prestar concurso em outro estado, a mecânica é a mesma e a conta se faz assim:
- Ache a lei da previdência militar do seu estado. Procure por “instituto de previdência dos militares” + o nome do estado. É onde está a alíquota principal.
- Procure se existe um segundo desconto de custeio. Foi o que mudou tudo em Minas: uma lei separada, de 1996, que ninguém cita.
- Veja se há contribuição de saúde ou só coparticipação. São coisas diferentes — uma sai todo mês, a outra só quando você usa.
- Some o IRRF. Nos postos iniciais ele já pesa mais que a previdência, e isso surpreende muita gente.
- Se o estado publicar folha aberta, confira. Minas publica a coluna de previdência isolada, o que permite verificar a alíquota real em vez de acreditar no que dizem.
Por que isso importa antes da posse
Duas razões práticas.
A primeira é de planejamento familiar. A diferença entre R$ 8.023 e R$ 6.213 é o que define se o financiamento cabe, se a mudança de cidade é viável, se dá para manter o segundo emprego do cônjuge. Decidir com o número bruto é decidir com o número errado.
O desconto que ninguém culpa
Há um dado de Goiás que vale mais que qualquer conselho. Sobre o subsídio de um Soldado, o desconto obrigatório soma cerca de 24,5% do bruto: 10,5% de previdência mais aproximadamente 14% de imposto de renda. Já o desconto mediano observado em folha passa de 40%.
Os cerca de 15 pontos de diferença não são o Estado. São consignado e pensão alimentícia.
Dois aprendizados nesse número. O primeiro: em Goiás o imposto de renda morde mais que a previdência — 14% contra 10,5%. O segundo, mais importante: na maioria dos contracheques, o que come o salário não é o desconto que a lei impõe, e sim o crédito consignado, que entra fácil e sai devagar. Desconto obrigatório você não escolhe. Esse, sim.
A segunda razão é que desconto obrigatório não se negocia. Diferente de consignado, associação ou seguro — que são facultativos e podem ser cancelados —, previdência e IRRF saem antes de você ver o dinheiro.
E há um ponto que vale dizer com todas as letras: nada disso torna a carreira ruim. Um Cabo com R$ 6.213 líquidos, estabilidade e progressão está bem acima da média nacional. O problema nunca foi o valor — é entrar sem saber qual ele é.
Referências
- Folha de pagamento do Estado de Minas Gerais, base aberta de março de 2026, com 8.805 registros do CBMMG: dados.mg.gov.br · Portal da Transparência MG
- Lei mineira 10.366/1990 (IPSM, alíquota de 8%): ALMG
- Lei mineira 12.278/1996 (custeio de 3,5%, só ativos): ALMG
- PL 2.239/2024 (proposta dos 3% de saúde — não aprovada): ALMG
- ADPF 1184 (STF), que manteve a alíquota de 8% da lei mineira: portal do STF
- STF, Tema 1.177 (RE 1.338.750) — competência estadual para fixar a alíquota dos próprios militares, com modulação até 1º/01/2023.
- LC paulista 1.013/2007 (previdência militar de SP): ALESP
- Lei paulista 452/1974 (contribuição de 2% para a CBPM): ALESP
Valores de folha referem-se a março de 2026 (MG). Alíquotas e leis mudam — confirme sempre na legislação vigente do seu estado. Este conteúdo é informativo e não constitui orientação financeira, tributária ou jurídica.
O quadro dos 27 Corpos de Bombeiros
Situação de cada corporação do Brasil — edital, banca, vagas e prazo, com a fonte oficial ao lado. A página é revisada conforme os editais saem.
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