Qual é o lema dos Bombeiros e o que ele significa
O lema dos Bombeiros Militares no Brasil é “Vidas alheias e riquezas salvar”, tradução da frase latina Alienam Vitam et Bona Salvare.
Não é slogan, não é criação de assessoria e não nasceu numa campanha. A inscrição em latim está gravada no Espadim Dom Pedro II, a espada curta entregue ao cadete durante o curso de formação de oficiais — a peça que marca sua condição oficial dentro da corporação e que, ao fim do curso, é trocada pelo espadim pela espada de oficial.
É uma sentença que a instituição coloca na mão de quem entra, antes de ele ter feito qualquer coisa. Vale entender o que ela pede.
A gramática, antes do resto
Vale desmontar a frase, porque cada pedaço faz trabalho:
- alienam vitam — “a vida alheia”, a vida do outro. Não a sua.
- et — “e”.
- bona — “os bens”. No latim, é o neutro plural de bonum, o que é bom, o que tem valor.
- salvare — “salvar”, no infinitivo.
Literalmente: salvar a vida alheia e os bens. A ordem em português inverte o verbo para o fim — “vidas alheias e riquezas salvar” —, o que dá à frase a cadência de divisa e não de instrução.
Alienam vitam: a parte que se aprende primeiro
O bombeiro, desde o primeiro momento em que ingressa numa escola de formação, começa a aprender sobre a primeira metade da sentença. E para chegar ao momento de atuar de fato, salvando vidas, é preciso aprender antes uma palavra vizinha: abnegação.
Abnegação é a ação caracterizada pelo desprendimento e pelo altruísmo, em que a superação das tendências egoístas da personalidade é conquistada em benefício de uma pessoa, de uma causa ou de um princípio.
Trocando em miúdos: abrir mão de um interesse particular em benefício de um interesse coletivo. Abrir mão do próprio por aquilo que é do outro — portanto, alheio.

E é essa a percepção que a palavra alienam carrega: por mais distante de você, e por mais que essa vida em questão seja de outra pessoa, ainda assim estará lá o bombeiro, disposto a fazer o que precisa ser feito — levando, até as consequências máximas, o dever de protegê-la.
Repare que o lema não diz “vidas salvar”. Diz vidas alheias. O adjetivo não está lá por acaso: ele exclui a própria.
Bona salvare: por que riquezas, e não bens
Curiosamente, a segunda metade costuma incomodar mais.
A vida inteira se aprende que riquezas mundanas não são o que importa, que o que importa é a vida. Por que então “riquezas” estaria no lema dos bombeiros?
Imagine que caiu um anel no bueiro e o bombeiro vai fazer um esforço enorme para tentar encontrá-lo. Entenda que não é apenas sobre o anel: é sobre o que ele representa — pode ser um anel de formatura, de noivado, ou até mesmo uma aliança.
Em geral essa segunda parte torna-se fundamental quando não existem vítimas. E ainda se pode trabalhar para amenizar os prejuízos na casa de alguém, evitar que um veículo seja completamente queimado, ou que um produtor perca seu pasto numa queimada. Embora sejam materiais, os impactos da perda dessas riquezas na vida das pessoas são profundos.
Em outros casos, o bem também pode ser uma vida. Imagine que, numa comunidade carente, um cavalo cai na fossa. E quem vai lá, literalmente, entrar na lama para tentar salvar o animal é o bombeiro. A nobreza desse serviço é enorme: além de ser uma vida, naquele animal pode estar o sustento de uma família inteira.
Por isso a tradução consagrada preferiu riquezas ao termo mais literal, bens. Bona, no latim, é o que é bom, o que tem valor. “Salvar bens” soa a patrimônio; “salvar riquezas” devolve à coisa o peso que ela tem para quem a perde — que raramente é o preço dela.
De onde vem a frase
O lema está amarrado à figura de Dom Pedro II, o mesmo imperador que assinou o Decreto nº 1.775, de 2 de julho de 1856, criando o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte — ato que dá origem à data comemorada até hoje como Dia do Bombeiro Brasileiro.
O espadim que leva seu nome carrega a inscrição latina e é entregue ao cadete no curso de formação de oficiais. É por essa peça que a frase circula institucionalmente há gerações, de corporação em corporação, até se tornar a divisa comum dos Corpos de Bombeiros Militares em todo o país.
Pequenas variações de forma aparecem entre as corporações — há quem registre “vida alheia” no singular, há quem escreva “riquezas a salvar” com a preposição. O sentido não muda, e a origem latina é a mesma.
O que o lema não diz
Uma observação que raramente se faz: o lema não menciona fogo.
Não fala em incêndio, em chama, em extinção. Fala em vida alheia e em riqueza — isto é, no que está em risco, não no agente que o ameaça. Isso explica, melhor do que qualquer organograma, por que o Corpo de Bombeiros atende afogamento, desabamento, acidente de trânsito, enchente, resgate em altura, captura de animais e busca de pessoas desaparecidas.
A missão nunca foi apagar fogo. Apagar fogo é um dos meios. O fim está na frase, e está escrito desde 1856.
Referências
- Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás — matéria institucional sobre a entrega do Espadim Dom Pedro II, que registra a inscrição latina “alienam vitam et bona salvare” e sua tradução como lema dos bombeiros militares. Página oficial.
- Decreto nº 1.775, de 2 de julho de 1856 — cria o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte.
- O lema figura em brasões, canções e documentos institucionais dos Corpos de Bombeiros Militares brasileiros; variações de grafia entre corporações foram observadas em páginas oficiais consultadas em 13 de agosto de 2026.
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Perguntas Frequentes
P: Qual é o lema dos bombeiros?
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P: Por que se diz riquezas e não bens, se bona significa bens?
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