Ataque de abelhas: o que fazer e quando ligar 193

Ataque de abelhas: o que fazer e quando ligar 193

Em 2024, 167 pessoas morreram no Brasil por picada de abelhas, vespas ou marimbondos. O número está nas declarações de óbito reunidas pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade, o SIM, do Ministério da Saúde. No mesmo ano, as picadas de cobra mataram 96.

De 2020 a 2024, foram 688 mortes por abelhas, vespas e marimbondos contra 611 por cobras. E a primavera abre a temporada: é quando as colônias se dividem e saem em enxame procurando casa nova.

Abelha já mata mais que cobra no Brasil?

Nos atestados de óbito, somando abelhas, vespas e marimbondos, sim. Consultamos o TabNet, painel público do DATASUS, em 23 de setembro de 2026. O código X23 da CID-10, a classificação internacional de doenças, reúne as mortes por contato com abelhas, vespas e vespões. No Brasil, algumas vespas maiores são chamadas de marimbondo. O código X20 reúne as mortes por serpentes e lagartos venenosos.

Desde 2022, o X23 fica na frente todo ano: 116 contra 103 em 2022, 159 contra 104 em 2023 e 167 contra 96 em 2024. O dado de 2025 ainda é preliminar e repete a ordem, com 154 contra 101.

Gráfico de barras das mortes por ano no Brasil, de 2016 a 2025 (2025 preliminar), nos atestados de óbito: abelhas, vespas e marimbondos (X23) ficam à frente das cobras (X20) todo ano desde 2022; de 2020 a 2024, 688 contra 611

O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde sobre animais peçonhentos, de 22 de dezembro de 2025, confirma o retrato numa conta mais larga: junta abelhas, vespas, marimbondos, formigas, lagartas e outros artrópodes peçonhentos, como lacraias, e soma as causas associadas do atestado. Deu 738 mortes de 2020 a 2024, contra 674 por serpentes. Nos dois quinquênios anteriores da série, que começa em 2010, a serpente estava na frente.

Agora a ressalva. O Ministério tem um segundo sistema, o Sinan, onde entra a ficha de notificação do serviço de saúde que atendeu o acidente. Ali, a cobra continua à frente em mortes em todos os anos de 2020 a 2025. Em 2024 foram 126 óbitos por serpente e 121 por abelha. Os dois sistemas contam coisas diferentes: o SIM parte da declaração de óbito, o Sinan parte do atendimento. E a categoria do Sinan é “abelha”, enquanto o X23 do SIM junta abelha, vespa e marimbondo.

Em número de acidentes, o Sinan não deixa dúvida: a abelha passou a serpente em 2023. Em 2024 foram 35.429 notificações por abelha contra 32.869 por serpente. Pelo boletim, a taxa de acidentes por abelha foi de 5,21 por 100 mil habitantes, de 2010 a 2014, para 12,26, de 2020 a 2024. Mais que dobrou.

Por que a primavera é a época dos enxames

O boletim registra que os acidentes com abelha se concentram de outubro a março, com pico em novembro, dezembro e janeiro. Norte e Nordeste variam pouco ao longo do ano.

O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, o CBMMS, explicou o motivo em fevereiro de 2023. Entre a primavera e o verão, a rainha deixa a colmeia antiga acompanhada de operárias, à procura de um lugar novo. É a enxameação. No caminho, o enxame para em qualquer lugar para descansar.

É aquela bola de abelhas que aparece de uma hora para outra no beiral, no tronco da árvore, na varanda. A Epagri, empresa de pesquisa agropecuária do governo de Santa Catarina, descreve a cena numa nota técnica de 2022. São famílias de passagem, ainda sem casa, que dificilmente fazem ataque maciço e vão embora num prazo de poucas horas a no máximo uma semana.

Enxame de abelhas em forma de bola, pendurado no beiral do telhado de uma casa, numa manhã de primavera

O perigo maior mora na colmeia já instalada: no forro, no oco da árvore, no sofá velho do quintal. A Epagri lista os gatilhos: vibração de máquina, cortador de grama, reforma, limpeza de terreno. O Ministério da Saúde acrescenta barulho, perfume forte, suor e roupa escura, principalmente preta e azul-marinho.

Enxame parado: o que fazer

Ninguém foi atacado ainda? Então a regra é calma. O Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, o CBMSC, orientou em fevereiro de 2026: ao topar com abelhas ou vespas, nada de movimento brusco nem grito, e afaste-se devagar, sem correr. Com o ataque já começado, a orientação do CBMMS e da Epagri é outra: sair dali o mais rápido possível. Para o enxame parado, o CBMMS acrescenta: avise quem passa pelo local, tire os animais de perto e não jogue pedra, não ponha fogo, não use inseticida.

Retirar colônia é serviço de profissional treinado e equipado, segundo o Ministério da Saúde, de preferência à noite ou ao entardecer. A Epagri recomenda chamar um apicultor quando as abelhas não atacaram ninguém. Em Santa Catarina, o CBMSC orienta ligar 193 quando o inseto representa risco real, perto de onde passam pessoas e crianças. Quem faz a retirada muda de estado para estado e de cidade para cidade. Não mexa no enxame. Descubra quem faz esse serviço onde você mora.

Ataque de abelhas: o que fazer, na ordem

Quando as primeiras abelhas picam, elas soltam um feromônio, um cheiro de alarme que chama as outras para o mesmo alvo. É assim que um acidente vira centenas de picadas, explica o Ministério da Saúde. Nas abelhas africanizadas, o ataque em massa vem de 10 a 20 segundos depois das primeiras picadas, segundo a Epagri. Guarde a ordem:

  1. Corra. Saia dali o mais rápido que puder, como mandam o CBMMS e a Epagri. “Algumas pessoas acham que devem agachar, mas isso não é recomendado”, alerta o CBMMS.
  2. Cubra o rosto e o pescoço com as mãos ou com um pano, como orienta o CBMSC.
  3. Entre num lugar fechado. Casa, carro, comércio. Feche portas e janelas. A Epagri lembra que abelha passa por fresta pequena.
  4. Não pule na água. O CBMSC avisa que os insetos podem esperar sobre a superfície por vários minutos. A Epagri lembra o risco de afogamento.
  5. Não revide. Nada de fogo, inseticida ou pedra contra as abelhas.
  6. Ligue 193 ou 192 assim que estiver longe das abelhas, se houver muitas picadas, falta de ar ou mal-estar.
  7. Raspe os ferrões com lâmina ou cartão enquanto o socorro chega. Pinça não, porque acaba injetando o veneno que ainda está no ferrão, segundo o Ministério da Saúde. O ferrão tem músculo próprio e continua injetando veneno depois de se soltar da abelha.

Sete passos do ataque de abelhas: correr sem se agachar, cobrir rosto e pescoço, entrar em lugar fechado, não pular na água, não revidar, ligar 193 ou 192, raspar o ferrão com cartão

Quem vai ajudar também corre risco. A Epagri orienta socorrer só depois de estar protegido, com uma coberta, por exemplo, ou quando a vítima já estiver longe das abelhas. É a mesma regra do afogamento: quem entra sem proteção vira a segunda vítima.

Quando ligar 193 ou 192

Em emergência, o Ministério da Saúde indica o SAMU 192 ou o Corpo de Bombeiros 193, e também o Centro de Informação e Assistência Toxicológica que atende a sua região. Ligue para o 193 ou o 192 quando:

  • o ataque ainda está acontecendo e há alguém cercado pelas abelhas;
  • a vítima levou muitas picadas;
  • aparece falta de ar, inchaço nos lábios, nas pálpebras ou pelo corpo, manchas vermelhas pelo corpo ou queda de pressão, mesmo depois de uma picada só;
  • a vítima sabe que é alérgica.

Segundo a Epagri, o efeito tóxico do veneno começa a partir de algumas dezenas de picadas e fica grave a partir de centenas. Com alérgico a conta é outra: o Ministério da Saúde registra que poucas picadas podem levar ao choque anafilático, e o coordenador do Civitox, centro de vigilância toxicológica de Mato Grosso do Sul, pede na nota do CBMMS atendimento médico urgente para quem já sabe que é alérgico ou sente falta de ar depois de uma única picada.

Com muitas picadas, o Ministério orienta levar a vítima rápido ao hospital, junto com alguns dos insetos que provocaram o acidente. O tratamento fica com o profissional de saúde. Ao telefone, passe as informações que o atendente precisa e, como pede o CBMSC, diga que é ataque de abelhas, se há vítimas e se alguém é alérgico.

Os dados do SIM mostram quem mais morre. De 2016 a 2025, 89% dos mortos por abelhas, vespas e marimbondos eram homens, e seis em cada dez tinham 60 anos ou mais. O boletim liga os acidentes com abelha ao trabalho rural. Somando todos os animais peçonhentos, as maiores taxas de mortalidade estão nos municípios remotos, a mais de uma hora de uma cidade grande. A Epagri descreve o mesmo padrão: o ataque fica grave quando a vítima não consegue se afastar rápido. Idoso, terreno difícil, gente operando máquina. Nesses casos, o 193 ou o 192 tem que ser acionado logo, porque os primeiros minutos pesam no desfecho.

Existe soro contra picada de abelha?

Ainda não na rede de saúde. Dos cinco principais tipos de acidente com animal peçonhento no Brasil (cobra, escorpião, aranha, lagarta e abelha), só o de abelha não tem soro específico, segundo o Ministério da Saúde.

Um soro está em desenvolvimento: o antiapílico, do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Unesp, o Cevap, em Botucatu. Ainda falta concluir a fase 3 de testes clínicos, a última antes do pedido de registro na Anvisa. Segundo a Agência FAPESP, ela prevê de 150 a 200 pacientes. Em janeiro de 2026, esse ensaio ficou em 12º lugar na lista de projetos aprovados num programa de inovação do Ministério da Saúde, o PDIL, entre os 20 que serão apoiados primeiro.

Até lá, o hospital trata os sintomas. “Infelizmente nós não temos hoje, na rede de saúde, um antídoto específico para esses acidentes”, afirmou o coordenador-executivo do Cevap, Rui Seabra Ferreira Jr., na reportagem da Agência FAPESP de outubro de 2025.

Resumo: o que fazer no ataque de abelhas

O pico de acidentes vai de novembro a janeiro. Na ordem: corra, cubra o rosto, entre e feche a porta. Depois, longe das abelhas, 193 ou 192 e ferrão raspado.

Referências

  • Ministério da Saúde/SVSA. Boletim Epidemiológico, Número Especial: Morbimortalidade causada por animais peçonhentos no Brasil, 2010-2024, 22 dez. 2025. PDF oficial.
  • DATASUS/TabNet. Óbitos por causas externas (SIM), CID-10 X20 e X23, consulta em 23 set. 2026. Dados finais até 2024; 2025 preliminar (extração de 28 jul. 2026). Painel.
  • DATASUS/TabNet. Acidentes por animais peçonhentos (Sinan), serpente e abelha, por ano do acidente, consulta em 23 set. 2026. Painel.
  • Ministério da Saúde. Acidentes por abelhas, página sem data, consultada em 23 set. 2026. Página oficial.
  • Ministério da Saúde. Acidentes por abelhas: Perguntas Frequentes, 14 out. 2022, atualizada em 10 fev. 2023. Página oficial.
  • CBMMS. Ataques de abelhas podem ser evitados com alguns cuidados, 10 fev. 2023. Página oficial.
  • CBMSC. Além das praias: calor do Carnaval elevou ocorrências com insetos e animais silvestres em SC, 19 fev. 2026. Página oficial.
  • Epagri. Nota Técnica: Segurança com Abelhas Africanizadas, 2022. PDF oficial.
  • Agência FAPESP. Soro nacional contra envenenamento por picada de abelha vai entrar na fase final de testes, 6 out. 2025. Reportagem.
  • Ministério da Saúde/SCTIE. Nota Informativa nº 5/2026-DECIS/SCTIE/MS: Ranqueamento de projetos aprovados no âmbito do PDIL, jan. 2026. PDF oficial.

Conteúdo relacionado: 193: o que dizer ao ligar · Os primeiros 5 minutos · Afogamento e a segunda vítima


Texto informativo, com dados oficiais do Ministério da Saúde e orientações de Corpos de Bombeiros Militares e da Epagri citadas com data, verificados até 25 de setembro de 2026. Não substitui orientação médica nem o atendimento de emergência.

Perguntas Frequentes

P: O que fazer em um ataque de abelhas?
Corra e se afaste o mais rápido possível, sem se agachar. Cubra o rosto e o pescoço com as mãos ou um pano. Entre num lugar fechado, como casa, carro ou comércio, e feche portas e janelas. Não pule na água e não use fogo, inseticida ou pedra contra as abelhas. Longe delas, ligue 193 ou 192 se houver muitas picadas, falta de ar ou mal-estar, e raspe os ferrões com lâmina ou cartão.
P: Quando ligar 193 por causa de abelhas?
Ataque em andamento, vítima com muitas picadas, pessoa alérgica ou qualquer sinal como falta de ar, inchaço nos lábios, nas pálpebras ou pelo corpo, manchas pelo corpo ou queda de pressão, mesmo depois de uma picada só: ligue 193 (Corpo de Bombeiros) ou 192 (SAMU). Enxame parado, sem ninguém sendo atacado, pede distância e orientação local, porque quem faz a retirada muda de estado para estado e de cidade para cidade.
P: Como tirar o ferrão de abelha?
Raspando, com uma lâmina ou um cartão, depois de estar longe das abelhas. O Ministério da Saúde orienta não usar pinça, porque ela acaba injetando o veneno que ainda está no ferrão. O ferrão tem músculo próprio e continua injetando veneno depois de se soltar da abelha, então quanto antes sair, melhor.
P: Abelha mata mais que cobra no Brasil?
Nos atestados de óbito, somando abelhas, vespas e marimbondos, sim. No Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), as mortes por abelhas, vespas e marimbondos (código X23) somaram 688 de 2020 a 2024, contra 611 por cobras (código X20), e ficaram na frente todo ano desde 2022. No Sinan, o sistema de notificação de atendimentos, a cobra ainda aparece à frente em mortes: 126 contra 121 em 2024. Em número de acidentes, a abelha passou a cobra no Sinan em 2023.
P: Existe soro contra picada de abelha?
Ainda não na rede de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, entre os cinco principais tipos de acidente por animal peçonhento, o de abelha é o único sem soro específico no Brasil. O soro antiapílico, do Cevap/Unesp de Botucatu, ainda precisa passar pela fase 3 de testes clínicos, prevista para 150 a 200 pacientes, antes de ter o registro pedido na Anvisa. Hoje o hospital trata os sintomas.

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