Backdraft: o que é e qual a diferença para o flashover

Backdraft: o que é e qual a diferença para o flashover

No manual de combate a incêndio urbano do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás, o CBMGO, aprovado pelo Comando-Geral em 28 de agosto de 2017, uma frase vem com aviso na frente: “importantíssimo salientar”. Ela diz que, enquanto o flashover é induzido pelo calor, o backdraft acontece por causa do comburente, o oxigênio que chega com o ar. O manual básico do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, o CBMDF, diz o mesmo na edição de 2009.

Na frente de uma porta fechada, com fumaça na fresta, essa frase vira a pergunta que decide o próximo passo. Do outro lado pode estar fogo vivo esquentando o cômodo até pegar tudo. Ou um cômodo onde a chama sumiu por falta de ar e a fumaça só espera ar para explodir.

Abaixo, cada fenômeno e seus sinais, pela doutrina dos dois Corpos de Bombeiros. Doutrina varia por estado: no serviço, vale o procedimento da sua corporação.

Flashover: o calor pega o cômodo inteiro

O manual do CBMGO chama o flashover de generalização do incêndio: todos os materiais do ambiente entram em ignição quase ao mesmo tempo. Costuma aparecer na passagem da fase crescente para a totalmente desenvolvida, quando o calor que irradia do teto e das paredes leva móveis e fumaça à temperatura de ignição.

O NIST, instituto de padrões e tecnologia do governo americano, usa definição parecida na sua página de dinâmica do fogo: superfícies expostas à radiação dos gases do incêndio, acima de 600 °C, chegam à ignição mais ou menos juntas. O NIST chama essa passagem de estágio mais perigoso do incêndio.

O flashover não produz onda de choque, mas o manual de Goiás lembra que o calor dele traz risco de colapso da estrutura. Quanto tempo uma sala mobiliada leva para chegar lá hoje está em outro texto nosso: o fogo de hoje queima muito mais rápido.

O que é backdraft

Backdraft é a explosão da fumaça. Pelo manual do CBMGO, é a deflagração da fumaça quente acumulada num ambiente fechado quando ela encontra oxigênio. Deflagração é a explosão que corre abaixo da velocidade do som, a mesma classe da explosão de gás de cozinha, o GLP. Mesmo assim gera onda de choque com força para ferir bombeiros e colapsar a edificação.

O caminho até ela é o contrário do flashover. Num incêndio com pouca ventilação, o fogo consome o oxigênio e aquece a fumaça. Quando o oxigênio cai abaixo de 14%, segundo o manual, as chamas desaparecem. O calor segue decompondo os materiais, a pirólise, e a fumaça enche de gases combustíveis. Um deles é o monóxido de carbono (CO), com faixa de explosividade de 12% a 74%, pelo manual. O cômodo fica quente, escuro, quase sem chama e cheio de combustível. Falta o ar.

O que acontece quando a porta abre foi medido em laboratório. Em junho de 1994, o NIST publicou o relatório NIST-GCR-94-646, pesquisa de doutorado de Charles Fleischmann na Universidade da Califórnia em Berkeley, com 28 experimentos de backdraft num compartimento de 1,2 m por 1,2 m por 2,4 m. Aberta a passagem, a fumaça quente sai pela parte de cima e o ar frio entra por baixo, rente ao piso, misturando-se com a fumaça no caminho. Quando a mistura alcança uma brasa ou uma pequena chama, acende. A chama corre de volta pelo cômodo e empurra para fora parte do combustível acumulado, que queima do lado de fora em bola de fogo.

Dois cômodos em corte: flashover à esquerda, porta aberta, fogo vivo e fumaça descendo rápido; backdraft à direita, porta fechada, chama quase apagada, fumaça na fresta de cima e ar frio entrando por baixo

Diferença entre backdraft e flashover: calor ou ar

FlashoverBackdraft
O que disparaCalor acumulado no cômodoAr entrando num cômodo pobre em oxigênio
Estado do fogo antesChama viva, fogo crescendoChama quase sumida, fogo parecendo apagado
FumaçaDensa, escura e turbulentaDensa e turbulenta, saindo em pulsos pelas frestas; cáqui em Goiás, escura no DF
Sinal de que está pertoRollover e teto de fumaça descendo rápidoAr sugado com força na abertura
Onda de choqueNão temTem
FrequênciaComumRara

Fontes: manual do CBMGO (2017), páginas 50 a 54; manual básico do CBMDF (2009), páginas 151, 152 e 159; livreto de treinamento do CBMDF (2009), página 3.

Existe também o flashover induzido pela ventilação. Pela página do NIST, num incêndio que perdeu força por falta de oxigênio, abrir a porta mistura ar aos gases quentes e o fogo pode crescer até o flashover. Nesse caso, o ar faz o fogo crescer e o calor leva o cômodo inteiro à ignição. No backdraft, o ar encontra a fumaça já cheia de combustível e ela explode.

Sinais de flashover

O manual do CBMGO lista quatro. O primeiro é a fumaça densa, escura e turbulenta. Escura pela fuligem da chama, que se deposita em janela, móvel e piso. Turbulenta porque está quente.

O segundo são chamas na zona de reação, a faixa onde a camada de fumaça encontra o ar. O terceiro é o rollover, a queima repentina de toda a camada de fumaça, com as chamas rolando pelo teto, que contribui diretamente para o flashover. O quarto são as ghost flames, clarões pequenos na fumaça, parecidos com relâmpago dentro de nuvem, que indicam fumaça prestes a pegar fogo por inteiro.

O manual básico do CBMDF também lista o rollover. O livreto de treinamento do CBMDF aponta a descida rápida do teto de fumaça como sinal de que o fenômeno está perto. E avisa que teto de fumaça que fica alaranjado de repente, ou desce de uma vez, geralmente significa que já é tarde para fugir.

Sinais de backdraft

O manual de Goiás lista seis, e quase todos aparecem do lado de fora da porta.

A fumaça é cáqui, densa e turbulenta, carregada dos gases da pirólise. Sai pelas frestas em pulsos, empurrada por pequenas combustões lá dentro, e escapa pelas frestas de cima por causa da pressão. O ar é sugado para dentro pelas frestas perto do piso, com som parecido com assobio. A fumaça que sai pega fogo assim que encontra o ar, o flame over. Porta e maçaneta estão quentes, sinal fácil de identificar. Os sons de dentro chegam abafados, o efeito algodão. E os vidros ficam com aspecto oleoso, da fuligem misturada à água da combustão.

O manual básico do CBMDF lista sete sinais e bate com o de Goiás em quase tudo. A diferença está na cor: o DF descreve a fumaça como densa e escura, rolando pelo ambiente, e fala em janelas enegrecidas. O livreto de treinamento destaca um sinal de iminência: a aspiração violenta de ar no momento da abertura.

Por que a leitura errada do cômodo causa acidente

O manual do CBMGO explica que a mistura de fumaça e ar pode ficar pronta para queimar em segundos ou levar alguns minutos. E escreve que essa imprevisibilidade contribui para acidentes com guarnições que, por análise equivocada do ambiente, supõem que ele está estabilizado alguns minutos depois de aberto e ventilado.

Os manuais de treinamento americanos da época, diz Fleischmann, já traziam os sinais de alerta do backdraft. Mesmo assim, na maioria das ocorrências relatadas, os bombeiros não os perceberam. Ele cita ainda uma revisão de 127 incêndios com explosão no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Canadá, em 70 anos até 1976, limitada ao que estava publicado. Uma das conclusões: muitos bombeiros morreram em explosões de incêndios latentes porque entraram acreditando que o fogo estava controlado ou tinha se apagado sozinho por falta de oxigênio.

A confusão aparece até na estatística. Segundo Fleischmann, a NFPA, associação americana de proteção contra incêndio, juntava backdraft, flashover e ignição de gases sob um só título, porque muitas vezes é difícil saber qual deles aconteceu.

O que os manuais dizem sobre a porta

Passagem de porta se treina, e cada Corpo de Bombeiros tem a sua técnica. O manual do CBMGO indica, para risco de backdraft, o ataque indireto por uma abertura pequena, só o bastante para passar o esguicho, porque dispensa a entrada no ambiente. O manual básico do CBMDF pede uma saída para a fumaça, o mais alto possível, antes de qualquer abertura no andar do incêndio.

O caminho do ar dentro da casa está em flow path e o novo comportamento do incêndio. O efeito de fechar a porta de um cômodo antes de ventilar aparece no relatório de 2026 do FSRI, instituto americano de pesquisa em incêndio, sobre dez incêndios em escala real para estudar a busca.

Fenômenos extremos do fogo: onde entra o rollover

O manual do CBMGO conta três comportamentos extremos: flashover, backdraft e ignição da fumaça. O manual básico do CBMDF usa a mesma divisão. O rollover entra como sinal do flashover. O BLEVE e o boil over ficam em outro capítulo do manual de Goiás, o dos riscos com gases e líquidos inflamáveis: o que é o BLEVE e por que é tão perigoso.

Resumo para guardar

Flashover é calor: fogo vivo, chama rolando no teto, camada de fumaça descendo rápido. Backdraft é ar: fogo que parece apagado, fumaça pulsando na fresta, ar assobiando por baixo da porta, maçaneta quente.

Referências

Conteúdo relacionado:

Texto informativo. Não substitui o manual, o procedimento operacional padrão (POP) nem a instrução da sua corporação. Doutrina de combate a incêndio varia por estado. Data da verificação: 25 de setembro de 2026.

Perguntas Frequentes

P: O que é backdraft?
É a explosão da fumaça. Segundo o manual de combate a incêndio urbano do CBMGO, aprovado em 2017, acontece em incêndio confinado quando a fumaça quente, carregada de gases combustíveis, entra em contato com o oxigênio. Na pesquisa de Charles Fleischmann publicada pelo NIST em 1994, o ar chega pela porta que abre ou pela janela que quebra. A queima é rápida e violenta, com onda de choque capaz de ferir bombeiros e colapsar a estrutura.
P: Qual a diferença entre backdraft e flashover?
O flashover é induzido pelo calor: o cômodo com fogo vivo esquenta até que todos os materiais entram em ignição quase ao mesmo tempo. O backdraft é induzido pelo ar: a chama sumiu por falta de oxigênio, a fumaça ficou cheia de combustível e explode quando o ar entra. O manual do CBMGO abre essa distinção com 'importantíssimo salientar', e o manual básico do CBMDF diz o mesmo. O flashover não tem onda de choque; o backdraft tem.
P: Quais são os sinais de backdraft?
O manual do CBMGO lista fumaça cáqui, densa e turbulenta saindo em pulsos pelas frestas; ar sugado para dentro pelas frestas perto do piso, com som parecido com assobio; fumaça que pega fogo assim que sai; porta e maçaneta quentes; sons abafados; e vidros com aspecto oleoso. O manual básico do CBMDF traz quase os mesmos sinais, mas descreve a fumaça como densa e escura e fala em janelas enegrecidas. O livreto de treinamento do CBMDF aponta a aspiração violenta de ar na abertura como sinal de iminência.
P: Quais são os sinais de flashover e o que é rollover?
O manual do CBMGO lista fumaça densa, escura e turbulenta, chamas na camada de fumaça, pequenos clarões dentro dela e o rollover, que é a queima repentina de toda a camada de fumaça, com as chamas rolando pelo teto. O manual registra que o rollover contribui diretamente para o flashover. O livreto de treinamento do CBMDF aponta a descida rápida da camada de fumaça como sinal de que o fenômeno está perto.
P: Quais são os fenômenos extremos do fogo?
O manual do CBMGO classifica três comportamentos extremos do fogo: flashover (generalização do incêndio), backdraft (explosão da fumaça) e ignição da fumaça. O manual básico do CBMDF usa a mesma divisão. O rollover aparece como sinal do flashover. O BLEVE fica em outro capítulo do manual, o dos riscos com gases e líquidos inflamáveis.

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