Pressão alta, glicemia e colesterol do Bombeiro Militar
Entre maio e junho de 2023, um convite de pesquisa circulou no boletim interno e no e-mail de cerca de 5 mil Bombeiros Militares da ativa. Era um questionário on-line da Universidade de Brasília, a UnB, sobre a própria saúde: pressão, colesterol e glicemia, a taxa de açúcar no sangue.
Responderam 247. Na glicemia, mais da metade deles, 58,7%, não soube dizer se o valor estava normal.
Este texto foi publicado em 29 de setembro de 2026, Dia Mundial do Coração, data que a World Heart Federation (federação mundial do coração) marca todo ano. Em abril, quando escrevemos sobre os 45% de mortes cardíacas em serviço nos Estados Unidos, registramos que o dado brasileiro sobre morte cardíaca em serviço é esparso. Existe, porém, número brasileiro publicado em revista científica sobre o coração da tropa: o que os Bombeiros Militares relatam de pressão, glicemia e colesterol, e do que morreram os do Rio de Janeiro em dez anos.
O que a pesquisa da UnB mediu
O estudo saiu em 2025 na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional e entrou na biblioteca SciELO em 13 de junho de 2025. Os autores são da Faculdade de Educação Física da UnB. A coleta foi de maio a junho de 2023, com autorização prévia da corporação onde a pesquisa aconteceu. O artigo não diz qual é a corporação.
Dos 247 participantes, 72,5% eram homens e 27,5% mulheres. A média de idade foi de 41,6 anos entre eles e de 36,3 entre elas. Um detalhe pesa na leitura: 71,3% trabalhavam no expediente, oito horas por dia útil. Só 23% estavam na escala de 24 por 72 das equipes de prontidão.
Três cuidados antes dos números. Tudo foi autorreferido: ninguém mediu pressão nem colheu sangue, cada um respondeu o que sabia de si. A amostra foi de voluntários, 247 de cerca de 5 mil convidados, e os próprios autores apontam isso como limitação. E o resultado vale para esse grupo, sem estimar a tropa do país inteiro.
Pressão alta em 38,5% dos Bombeiros Militares da pesquisa
A hipertensão arterial, a pressão alta, foi o fator de risco mais comum entre os que dá para mudar. Apareceu em 38,5% dos participantes: 42,5% dos homens e 27,9% das mulheres.

Na sequência vieram a hiperglicemia, açúcar alto no sangue, em 30,8%, e o colesterol alto, em 20,2%. A obesidade apareceu em 13,8%, abaixo da população em geral. O sedentarismo ficou em 15,4%. Os outros 84,6% cumpriam o mínimo de atividade física da Organização Mundial da Saúde, 150 minutos por semana.
O Bombeiro Militar da pesquisa se mexe, tem menos obesidade que a população em geral e mesmo assim relata pressão alta em quase quatro de cada dez. Os autores lembram que a hipertensão costuma ser assintomática e silenciosa.
Quase seis em cada dez não sabiam se a glicemia estava normal
Na pergunta sobre glicemia, 58,7% não souberam dizer se o valor estava dentro ou fora da faixa normal. No colesterol, 75 participantes, 30,4% do total, disseram não conhecer o próprio perfil lipídico, o exame de sangue que mede as gorduras.
Isso muda a leitura dos números de cima. Se quase seis em cada dez não sabem se a glicemia está normal, os 30,8% de hiperglicemia podem ser só a parte conhecida. Os autores registram que é “fortemente provável” que glicemia e colesterol tenham ficado subestimados. Na discussão, ao falar dos que não conheciam o próprio colesterol, escrevem: “Não há como se pensar em prevenção quando se desconhece a existência do problema.”
O que quer dizer “alto risco” na pesquisa
O estudo classificou 52,6% dos participantes como alto risco cardiovascular. Entre as mulheres, 73,5%. Entre os homens, 44,7%.
A classificação vem de um questionário adaptado das diretrizes do American College of Sports Medicine, o ACSM (colégio americano de medicina do esporte), usado na triagem antes da prática de exercício. Entra como alto risco quem relatou algum sinal ou sintoma sugestivo de doença do coração ou do metabolismo, ou quem já tinha diagnóstico médico dessas doenças. É uma triagem por questionário. Diagnóstico, só com exame e médico.
Um em cada cinco participantes, 20,2%, marcou dor ou desconforto no peito, e 25,1% marcaram tonturas ou desmaios. Nas mulheres esses sintomas foram mais comuns, e também o diagnóstico prévio de doença metabólica: 14,7%, contra 5,0% nos homens. Segundo os autores, é isso que explica o alto risco maior entre elas, mesmo sendo mais jovens e tendo menos fatores de risco.
Dor no peito é motivo para procurar o médico ou o serviço de saúde da corporação, sem esperar a próxima inspeção. Se a dor vier forte e de repente, piorar sem aliviar com repouso ou chegar junto com falta de ar, suor intenso, náusea ou desmaio, a orientação do Ministério da Saúde é acionar o SAMU, no 192.
No Rio de Janeiro, a doença cardiovascular foi a primeira causa de morte
O segundo número brasileiro vem de um estudo sobre a mortalidade no Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, o CBMERJ, publicado em 2020 na Revista FLAMMAE, do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco. Os autores levantaram todos os óbitos de Bombeiros Militares do sexo masculino do estado entre 2006 e 2015, da ativa e da inatividade. Foram 965 mortes.
A doença cardiovascular foi a principal causa: 29,7% dos óbitos, perto dos 27,6% da população masculina do estado no mesmo período. Os autores registram que ela também foi a primeira causa na população em geral. O quadro muda quando se separa a ativa da inatividade, a reserva e a reforma. Na ativa, ela respondeu por 16,4% das mortes. Entre os inativos, por 35,8%. A idade média das mortes cardiovasculares foi de 60,4 anos.

Na ativa, a primeira causa foi outra. As causas externas, grupo das mortes que não vêm de doença, somaram 48,5% dos óbitos, e o artigo não detalha quais foram. A doença cardiovascular pesou mais depois: entre os que já tinham deixado o serviço ativo, foi a causa de mais de um terço das mortes. É o grupo mais velho: a média de idade no óbito foi de 63 anos entre os inativos e de 42,6 na ativa.
Os 45% e os 29,7% medem coisas diferentes
Quem leu nossos textos sobre a morte cardíaca de bombeiros conhece o número de 45%. Ele não se compara com os 29,7% do Rio. Os 45% são a fatia cardíaca das mortes em serviço de bombeiros americanos, durante ocorrência, treino ou deslocamento. Os 29,7% são a fatia cardiovascular de todas as mortes de Bombeiros Militares do Rio, no quartel ou em casa, na ativa ou na reserva. Um conta quem morreu trabalhando. O outro conta todas as mortes, de qualquer causa, em serviço ou fora dele.
Pressão, glicemia e colesterol: o que é normal pelas diretrizes brasileiras
São os três fatores de risco mais comuns na pesquisa da UnB entre os que dá para mudar, e dois deles, glicemia e colesterol, foram os que muitos não souberam informar.
Os valores abaixo são das diretrizes médicas brasileiras em vigor. Servem para você entender o laudo. Quem interpreta o seu resultado e decide o que fazer é o médico.
- Pressão arterial. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, das sociedades brasileiras de Cardiologia (SBC), de Hipertensão (SBH) e de Nefrologia (SBN), considera normal a pressão abaixo de 120 por 80 mmHg. De 120 a 139 de máxima (sistólica), ou de 80 a 89 de mínima (diastólica), agora é pré-hipertensão. O velho 12 por 8 entrou nessa faixa. O diagnóstico de hipertensão é feito com a máxima em 140 ou mais, ou a mínima em 90 ou mais, no consultório, em duas ocasiões diferentes. Basta uma das duas estar alta. Para confirmar, a diretriz recomenda a MAPA, que mede a pressão ao longo de 24 horas, ou a MRPA, a medida feita em casa. Como a pressão alta costuma não dar sintoma, a diretriz pede avaliação em todas as consultas.
- Glicemia. Pela Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), no capítulo de diagnóstico revisado em 9 de julho de 2024, a glicemia de jejum normal fica abaixo de 100 mg/dL. De 100 a 125 é pré-diabetes. A partir de 126 entra no critério de diabetes. Um exame alterado sozinho deve ser repetido para confirmar.
- Colesterol. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025, da SBC, não trabalha com um número único. A meta do LDL, o chamado colesterol ruim, depende da categoria de risco cardiovascular de cada pessoa: abaixo de 115 mg/dL no baixo risco, abaixo de 100 no intermediário, abaixo de 70 no alto, abaixo de 50 no muito alto e abaixo de 40 no risco extremo. Em qual categoria você está, quem calcula é o médico.
O caminho para os três é o mesmo: a inspeção de saúde periódica, o serviço de saúde da corporação ou o seu médico. Guarde os resultados com a data de cada exame e compare com as faixas acima.
Os autores da UnB defendem, para a categoria, um programa de rastreio, prevenção, aconselhamento, educação e tratamento desses fatores de risco desde o início da carreira, e citam o possível aprimoramento das avaliações ocupacionais de rotina para achar esses fatores mais cedo. A recomendação é deles.
Para lembrar
Na pesquisa da UnB, 38,5% dos Bombeiros Militares relataram pressão alta e 58,7% não souberam dizer se a glicemia estava normal. E desde a diretriz de 2025, o 12 por 8 é pré-hipertensão.
No Dia Mundial do Coração, a pergunta é para cada um: você sabe os seus três números?
Referências
- OLIVEIRA, A.F.; BARRETO, K.A.; COSTA, A.P.; PORTO, L.G.G. Prevalência de fatores de risco cardiometabólicos em bombeiros militares brasileiros de ambos os sexos. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 50, e5, 2025 (SciELO, 13 jun. 2025; coleta em maio e junho de 2023). DOI.
- COELHO, S.C.S. et al. Mortalidade em bombeiros militares do Estado do Rio de Janeiro, Brasil: análise de período de dez anos. Revista FLAMMAE, v. 6, n. 16, p. 89-104, 2020 (aceito em 8 jun. 2020; dados de 2006 a 2015). DOI.
- SBC, SBH e SBN. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, 2025. DOI.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz da SBD, edição 2026, capítulo revisado em 9 jul. 2024. Página oficial.
- SBC. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, 2025. DOI.
- Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linhas de Cuidado: Dor torácica, Sou Paciente. Última atualização em 18 jan. 2022, consultada em 25 set. 2026. Página oficial.
- World Heart Federation. World Heart Day, 29 September, consultada em 23 set. 2026. Página oficial.
Conteúdo relacionado: 45%: a morte cardíaca em serviço e a prevenção · 45% das mortes em serviço são cardíacas · Escala do Bombeiro Militar: 24x72, 24x48 e 12x36
Texto informativo, com estudos científicos, diretrizes médicas brasileiras e página do Ministério da Saúde citados com a data de cada documento, verificados entre 23 e 25 de setembro de 2026. Os números da UnB são autorreferidos e valem para o grupo estudado. Não substitui consulta nem orientação médica: para avaliar os seus exames, procure o serviço de saúde da sua corporação ou o seu médico.
Perguntas Frequentes
P: Quantos Bombeiros Militares têm pressão alta no Brasil?
P: Do que morreram os Bombeiros Militares do Rio de Janeiro em dez anos?
P: Qual a pressão normal pela nova diretriz de 2025?
P: Qual o valor normal da glicemia em jejum?
P: Qual o valor ideal do colesterol LDL?
Vai prestar concurso de Bombeiro Militar? Conheça oKFAM — Kit de Ferramentas da Aprovação Militar.
O quadro dos 27 Corpos de Bombeiros
Situação de cada corporação do Brasil — edital, banca, vagas e prazo, com a fonte oficial ao lado. A página é revisada conforme os editais saem.
A comunidade da Central Bombeiro fica no Telegram.