17 minutos a 100 °C: o limite do EPI onde não existe chama nenhuma

17 minutos a 100 °C: o limite do EPI onde não existe chama nenhuma

A conversa sobre o limite do conjunto de proteção estrutural quase sempre gira em torno do momento extremo: o flashover, a chama que envolve, o segundo em que o ambiente vira. É compreensível — é o que aparece no vídeo de treinamento e o que se sente no simulador.

Um artigo publicado em abril de 2026 no periódico Fire Technology olhou para o lado oposto do problema. Não para o instante da chama, mas para a faixa morna, sem fogo visível, que o bombeiro atravessa dezenas de vezes por ano sem pensar duas vezes: o corredor cheio de fumaça quente, o cômodo ao lado do que está queimando, o rescaldo.

O resultado é desconfortável.

O que foi medido

O estudo é de Thomas DiPietro, Charles Fleischmann e Fernando Raffan-Montoya, da Universidade de Maryland em conjunto com o Fire Safety Research Institute, do UL Research Institutes. Saiu com o título Operation Limits of Firefighter Protective Ensembles in Non-Flaming, Pre-Flashover Exposures, publicado online em 16 de abril de 2026 — a edição impressa é de maio, e a nota institucional do FSRI divulgando os achados é de 7 de maio.

Os pesquisadores expuseram amostras de tecido de dois tipos de conjunto de proteção usados por dois grandes corpos de bombeiros dos Estados Unidos a ar quente em movimento, a 0,5 metro por segundo, em temperaturas de 100 °C a 300 °C, sem chama. No lugar da pele, um calorímetro de placa de cobre. A medição era simples e direta: quanto tempo até o calorímetro atingir 55 °C, temperatura a partir da qual pode ocorrer queimadura de segundo grau na pele humana.

Os números

Gráfico: tempo até o limiar de queimadura de segundo grau, cerca de 1.000 segundos a 100 °C e cerca de 100 segundos a 300 °C

A 100 °C, o tempo até o limiar de queimadura de segundo grau foi de aproximadamente 1.000 segundos — cerca de 17 minutos.

A 300 °C, caiu para aproximadamente 100 segundos — menos de dois minutos.

Na formulação do próprio instituto, esses tempos ficam abaixo dos tempos operacionais considerados seguros para bombeiros assim que a exposição ultrapassa 100 °C. E a conclusão institucional é a frase que dá peso ao artigo: as diretrizes térmicas em uso podem não proteger adequadamente o bombeiro em condições rotineiras de incêndio.

Repare no que a faixa testada representa. Cem graus não é um ambiente extremo — é o teto de um cômodo com fumaça em boa parte das ocorrências residenciais. Trezentos graus ainda está bem abaixo do patamar em que se discute flashover. O estudo mediu, portanto, o intervalo que a doutrina costuma tratar como zona de trabalho, não como zona de perigo.

O que este estudo não é

Aqui é obrigatório ser rigoroso, porque a tentação de transformar esse número em regra de emprego é grande — e seria um erro sério.

Foram amostras de tecido em bancada. Não foram bombeiros vestidos em incêndio real. O termo usado no artigo é swatches: pedaços de tecido montados em aparato de ensaio, com um calorímetro de cobre no lugar da pele. Escrever que “testaram bombeiros” seria falsificar a fonte.

O calorímetro não é pele. Ele é um substituto padronizado, que permite comparar materiais em condições controladas. A resposta térmica de uma pessoa real depende de umidade, de perfusão, do que está sendo vestido por baixo e do próprio esforço físico — nada disso entrou no ensaio.

Isso não é norma, não é protocolo e não é cronômetro. Nenhum bombeiro deve sair de um ambiente contando dois minutos porque leu este texto. Tempo de permanência em ambiente quente é matéria de doutrina da corporação, definida em POP e em norma — não em artigo científico, e muito menos em página de conteúdo. O que o estudo oferece é insumo para quem escreve essas normas, e argumento para revisá-las.

O equipamento testado é americano, fabricado sob normas americanas. Nada aqui autoriza afirmação sobre o conjunto específico usado por qualquer corporação brasileira.

Por que isso muda o raciocínio

O valor prático do achado não está no número em si. Está em onde ele desloca a atenção.

Todo o esforço de proteção térmica do bombeiro foi construído em torno do evento agudo. O conjunto é dimensionado, ensaiado e discutido pensando no pior momento possível. Esse estudo sugere que o desgaste térmico relevante pode estar acontecendo antes disso, num intervalo em que ninguém está especialmente alerta — e de forma cumulativa, ocorrência após ocorrência.

Ele também dá base física a duas práticas que já vinham sendo defendidas por outros motivos. A primeira é manter o equipamento de proteção respiratória durante o rescaldo, o que costuma ser justificado pela toxicidade da fumaça residual: agora há um segundo motivo, térmico. A segunda é isolar compartimentos antes de ventilar — se o cômodo vizinho está a 100 °C e o tempo de segurança ali é menor do que se imaginava, a ordem das ações importa mais do que parecia.

E há um ponto que conecta este achado ao outro eixo de desgaste do mesmo equipamento. O conjunto de proteção tem um problema químico, que são os compostos presentes no próprio tecido e os produtos de combustão que ele absorve, e tem um problema térmico, que é este. São eixos independentes do mesmo objeto, e até aqui só falávamos do primeiro.

Referências

Conteúdo relacionado no acervo: PFAS no EPI estrutural · O fogo de hoje queima 6x mais rápido · O fogo mudou: flow path e o novo comportamento do incêndio


Este texto é informativo e reporta os resultados de um ensaio de bancada publicado em periódico revisado por pares. Não constitui doutrina operacional, parâmetro de tempo de permanência nem orientação médica, e não substitui o POP e as normas da sua corporação.

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