Onde o bombeiro lava o EPI de combate — e por que a resposta é um problema

Onde o bombeiro lava o EPI de combate — e por que a resposta é um problema

O acervo técnico brasileiro sobre contaminação de equipamento de proteção é quase todo tradução. Traduz-se o protocolo de descontaminação americano, traduz-se a monografia da IARC, traduz-se a norma da NFPA. Falta o passo seguinte, que é o mais difícil: descobrir o que o bombeiro brasileiro efetivamente faz com o conjunto sujo quando termina o serviço.

Um levantamento publicado em 2026 na Revista Flammae, do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, tentou responder exatamente isso. E antes de qualquer número, um aviso que muda a leitura inteira: o artigo é de 2026, mas os dados são de 2020.

A pesquisa

Pesquisadores do Instituto Federal de Brasília e da Universidade de Brasília aplicaram um questionário a 137 Bombeiros Militares de duas corporações: 79 do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal e 58 do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco. A coleta foi feita por formulário eletrônico entre 14 de setembro e 31 de dezembro de 2020. O artigo saiu na edição de janeiro a junho de 2026, publicado em 29 de maio.

Esse intervalo de quase seis anos entre o dado e a publicação não invalida nada, mas obriga a escrever tudo no passado. O que segue é um retrato de 2020, não uma fotografia do serviço hoje. As duas corporações podem ter mudado protocolo desde então, e não verificamos se mudaram.

Onde o uniforme era lavado

Gráfico: 65,3% dos 137 bombeiros lavavam o uniforme de combate em casa, contra 14,3% nas instalações do quartel

65,3% respondiam que lavavam o uniforme de combate a incêndio em casa. Cerca de 16% recorriam a lavanderia comercial, 14,3% usavam as instalações do quartel e 2% tinham acesso a lavanderia especializada.

Traduzindo o número para o que ele significa na segunda-feira: dois terços do efetivo levavam para dentro de casa um tecido que absorveu produtos de combustão — e o lavavam no mesmo equipamento onde circula a roupa da família.

O armazenamento seguia a mesma lógica. A maioria, 57,3%, guardava o conjunto em armário individual no quartel. Mas 16,0% guardavam no mesmo armário que as roupas pessoais e 14,7% dentro do veículo particular — que é um compartimento fechado, quente e frequentemente ocupado por outras pessoas da família.

O detalhe que explica quase tudo

Há um número no levantamento que, sozinho, explica a maior parte dos outros: 73,7% dos participantes possuíam apenas um uniforme de combate a incêndio, e 11,7% não possuíam nenhum — sendo que todos os que declararam não ter conjunto eram de Pernambuco.

Quem tem um único conjunto não tem escolha real. Mandar o equipamento para uma lavagem que demora dias significa ficar sem equipamento. O comportamento que a pesquisa mediu não é descuido individual: é o que sobra quando a estrutura não oferece alternativa.

Foi nessa direção que apontaram os próprios participantes. 75,9% responderam que a corporação não promovia diretrizes voltadas à redução do risco de câncer, e outros 2,2% disseram não saber se havia.

O que esse dado não permite dizer

Três limites precisam ficar explícitos, porque o assunto é sensível e o número é forte o suficiente para ser usado indevidamente.

O primeiro já foi dito e é o mais importante: os dados são de 2020. Usar esses percentuais no presente, como se descrevessem o CBMDF ou o CBMPE de hoje, seria transformar um levantamento antigo em acusação atual. Não é o que ele é, e não é o que fazemos.

O segundo é metodológico. A amostra foi autosselecionada por formulário eletrônico — respondeu quem quis. Isso caracteriza um levantamento exploratório, útil para revelar um padrão, insuficiente para estimar uma população. Os 65,3% descrevem os 137 que responderam, não os efetivos das duas corporações.

O terceiro é químico, e vale para não misturar assuntos que já tratamos separadamente. Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos que se depositam no tecido após um incêndio não são os PFAS. São classes de compostos diferentes, com origens diferentes: os primeiros vêm da fumaça, os segundos vêm da fabricação do próprio tecido. A descontaminação lida com os primeiros; a substituição do material lida com os segundos.

Por que isso importa agora

O elo que faltava no nicho brasileiro era este. Já sabíamos, pela literatura internacional, que existe risco. Já sabíamos, desde 2022, que a IARC classificou a exposição ocupacional como bombeiro no Grupo 1. E, como mostramos em outro texto desta série, a norma federal brasileira de vigilância já lista a fuligem associada a três tipos de câncer.

O que não existia era um retrato de comportamento. Agora existe um, com todas as ressalvas acima — e ele mostra que o problema não estava na consciência do militar, e sim na quantidade de conjuntos disponíveis e na existência de um lugar para lavá-los.

Essa é uma distinção que muda a conversa. Enquanto o assunto for tratado como higiene pessoal, a resposta é um cartaz no vestiário. Quando é tratado como infraestrutura, a resposta é orçamento: segundo conjunto, máquina de lavar dedicada, área suja separada da área limpa no quartel.

Os autores do levantamento concluem nessa direção, pedindo protocolos institucionais de manejo e descontaminação. É a recomendação deles, e é a que faz sentido diante do que eles mediram.

Referências

  • Revista Flammae — revista científica do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, v. 12, n. 38, p. 01-33, edição de janeiro a junho de 2026, publicado em 29/05/2026. Levantamento com 137 Bombeiros Militares do CBMDF e do CBMPE, com dados coletados entre 14/09 e 31/12 de 2020. Acervo da revista disponível em revistaflammae.com.
  • IARC Monographs Volume 132 — classificação da exposição ocupacional como bombeiro no Grupo 1, 2022.
  • Portaria GM/MS nº 5.674, de 1º de novembro de 2024 — redação vigente da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, que associa a fuligem em atividades de trabalho aos CID C34, C44 e C67.

Conteúdo relacionado no acervo: A lista do Ministério da Saúde não diz “bombeiro” — mas diz fuligem · PFAS no EPI estrutural · Câncer e o bombeiro: como se proteger


Este texto é informativo e reporta os resultados de um levantamento científico publicado, com a data de coleta explicitada. Não substitui norma, POP ou orientação da Seção de Saúde da sua corporação, nem constitui avaliação sobre a prática atual de qualquer corporação citada.

Vai prestar concurso de Bombeiro Militar? Conheça oKFAM — Kit de Ferramentas da Aprovação Militar.

Concursos

O quadro dos 27 Corpos de Bombeiros

Situação de cada corporação do Brasil — edital, banca, vagas e prazo, com a fonte oficial ao lado. A página é revisada conforme os editais saem.

Ver os 27 concursos

A comunidade da Central Bombeiro fica no Telegram.