25 anos do 11 de Setembro: o ar do Ground Zero não era seguro
Em 11 de setembro de 2001, 343 membros do Corpo de Bombeiros de Nova York, o FDNY, morreram no desabamento das torres do World Trade Center. Foi a maior perda de bombeiros em um único evento na história.
Vinte e cinco anos depois, o muro memorial do FDNY tem outra conta, gravada em placas de bronze: 438 nomes de bombeiros, socorristas e funcionários que morreram depois, de câncer e de doenças respiratórias ligadas aos meses de trabalho nos escombros. Em 2 de setembro de 2026, foram acrescentados 36 nomes de uma só vez.
Uma semana antes do aniversário, a prefeitura de Nova York abriu ao público cerca de 170 mil páginas de documentos internos sobre a resposta ao ataque. O que eles registram, mês a mês, é a distância entre o que se sabia dentro dos gabinetes e o que se dizia para quem estava respirando aquela poeira.
Esta matéria conta o que os registros mostram, o que a conta médica virou em 2026 e o que a história tem a dizer a quem faz rescaldo no Brasil.
O que os documentos mostram
A liberação aconteceu em 8 de setembro de 2026 e encerrou dois processos movidos pela organização 9/11 Health Watch, que há anos pedia os arquivos pela lei de acesso à informação americana. O portal oficial fica em sept11documents.cityofnewyork.us e vai receber mais material ao longo de doze meses. Parte do acervo, 68 caixas de documentos, só foi localizada em 2025.
Três registros resumem o conjunto.
Outubro de 2001: o memorando ao vice-prefeito. Um memorando enviado ao então vice-prefeito Robert Harding informava que o departamento jurídico da cidade previa 35 mil possíveis autores de ações judiciais por danos ligados ao Ground Zero, como ficou conhecido o terreno das torres. O texto listava os motivos. Um deles, em tradução livre: “socorristas receberam equipamento defeituoso ou nenhum equipamento (por exemplo, respiradores)”. Outro: avisos de saúde fizeram pessoas voltar cedo demais à região, “causando exposição tóxica”. O documento também sugeria medidas legislativas para limitar a responsabilidade da cidade.
Fevereiro de 2002: “não estamos informando as pessoas dos riscos reais”. Um memorando de 28 de fevereiro de 2002, escrito por um assessor do prefeito Michael Bloomberg, resumia as preocupações do deputado federal Jerrold Nadler com a qualidade do ar dentro dos prédios do sul de Manhattan. A frase central: “If Nadler’s concerns are justified, we are not informing people of the real health risks”. O texto recomendava suspender a orientação oficial de que os moradores limpassem os apartamentos com pano úmido.
Amianto onde se dizia que não havia. Um memorando da assessora Ester Fuchs reconhecia “pelo menos um baixo nível de amianto na poeira de muitos prédios do sul de Manhattan”. Em agosto de 2002, o carpete do auditório da escola Stuyvesant, a menos de 800 metros das torres, apresentou cerca de 2,5 milhões de estruturas de amianto por centímetro quadrado, 500 vezes o limite de liberação da EPA, a agência ambiental do governo americano. Dez meses depois do ataque, ainda se detectava amianto em telhados e fachadas a mais de 500 metros do local.
Benjamin Chevat, diretor da 9/11 Health Watch, resumiu assim ao receber o acervo: por 25 anos, quatro administrações municipais diferentes mantiveram longe do público documentos que mostravam os riscos reais, enquanto a mensagem oficial continuava sendo a de que o ar era “seguro e aceitável”.
O que se dizia em público
A linha do tempo das declarações oficiais estava documentada muito antes de 2026. O que os registros fazem é colocá-la lado a lado com o que os mesmos gabinetes escreviam para dentro.
- 16 de setembro de 2001. Cinco dias após o ataque, a prefeitura fala em “risco muito baixo de efeitos de saúde no curto ou no longo prazo”.
- 18 de setembro de 2001. A EPA, pela administradora Christine Todd Whitman, divulga nota afirmando que o ar perto do World Trade Center era “seguro para respirar” e a água, segura para beber.
- 21 de fevereiro de 2002. O prefeito Michael Bloomberg declara que todos os testes feitos pelos governos federal, estadual e municipal apontavam qualidade do ar aceitável.
- 21 de agosto de 2003. O Inspetor-Geral da EPA publica o relatório 2003-P-00012 e conclui que, ao declarar o ar seguro em 18 de setembro de 2001, a agência “não tinha dados e análises suficientes para fazer uma afirmação tão abrangente”. Faltavam medições de material particulado e de outros poluentes. O relatório registra ainda que o Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca convenceu a EPA a “acrescentar frases tranquilizadoras e apagar as cautelosas” nos comunicados.
- 10 de setembro de 2016. Whitman, em entrevista ao jornal The Guardian: “I’m very sorry that people are sick. I’m very sorry that people are dying and if the EPA and I in any way contributed to that, I’m sorry.”
- Setembro de 2026. Questionada pela CNN sobre os documentos, Whitman afirmou que todos na EPA fizeram o melhor que podiam com as informações, as ferramentas e o conhecimento disponíveis na época. Um porta-voz de Bloomberg preferiu não comentar.

O que havia naquele ar
Duas torres de 110 andares viraram pó em segundos. A nuvem que cobriu o sul de Manhattan carregava concreto pulverizado, fibras de amianto usadas na estrutura dos prédios, vidro moído e tudo o que queimava nos escombros, que continuaram em combustão por mais de três meses. Um médico do programa de saúde do World Trade Center, citado pela revista Scientific American, descreveu o prédio como feito de “praticamente cada carcinógeno conhecido”.
Quem entrou primeiro entrou sem proteção respiratória adequada, e o memorando de outubro de 2001 admite isso por escrito. Quem ficou trabalhou meses ali, em turnos longos, em cima de uma pilha que soltava fumaça. A exposição não foi um dia. Foi uma temporada.
A conta em 2026
O dano tem latência. Câncer não aparece no mês seguinte, aparece dez, quinze, vinte anos depois. Por isso a conta do 11 de Setembro ainda está subindo em 2026.
No FDNY. Em setembro de 2023, o número de membros mortos por doenças relacionadas ao World Trade Center se igualou aos 343 do dia do ataque. Em 2 de setembro de 2026, com os 36 nomes acrescentados na cerimônia anual, o muro memorial chegou a 438.
No programa federal de saúde. Criado pela Lei Zadroga, de 2011, o programa de saúde do World Trade Center atende socorristas e moradores expostos. Os números, com dados até 30 de junho de 2026:
| Indicador | Número |
|---|---|
| Pessoas atendidas hoje pelo programa | cerca de 145 mil |
| Pessoas que já passaram pelo programa desde 2011 | 154,7 mil |
| Casos de câncer certificados como relacionados ao atentado, desde 2011 | 57.044 |
| Casos de câncer certificados só nos últimos doze meses | 10.393 |
| Casos de rinossinusite crônica certificados | 42.372 |
| Casos de refluxo gastroesofágico certificados | 39.190 |
| Casos de asma certificados | 23.137 |
| Casos de transtorno de estresse pós-traumático certificados | 18.321 |
Os cânceres mais certificados, em ordem: pele não melanoma, próstata, mama, melanoma, linfoma, tireoide, rim e pulmão. Nos últimos doze meses o câncer foi de longe a condição mais certificada: 10.393 casos, contra 1.553 de refluxo e 1.410 de rinossinusite.
O programa não rastreia a causa de morte de seus membros. As estimativas de que mais de 9 mil pessoas já morreram de doenças relacionadas ao 11 de Setembro, três vezes o número de mortos no dia, são da imprensa americana e devem ser lidas com essa ressalva.

Uma família, três bombeiros
O Tenente Jim Brosi, hoje presidente do sindicato dos oficiais do FDNY, trabalhou nos escombros ao lado do pai e do irmão, também bombeiros. O pai, Tenente Joseph Brosi, voltou ao Ground Zero dia após dia durante a remoção. Morreu em fevereiro de 2023, de câncer de pulmão em estágio 4. O irmão hoje trata uma doença relacionada ao 11 de Setembro.
À CNN, Brosi disse que a tropa sempre soube que o ar era terrível e que passou anos brigando para que se acreditasse na ligação entre o trabalho nos escombros e as doenças. O que os documentos fizeram, na palavra dele, foi confirmar o que os bombeiros diziam.
Na mesma semana da liberação dos documentos, o FDNY enterrou mais dois: o bombeiro aposentado John H. Marsh e o Tenente aposentado Gerard M. Reilly.
O que isso diz ao Bombeiro Militar brasileiro
Nova York foi um caso extremo em escala. O mecanismo, porém, é o mesmo de qualquer ocorrência longa com poeira, fumaça e escombro: o risco não termina quando a chama apaga.
1. O rescaldo e o colapso também expõem. A pior exposição do 11 de Setembro não foi ao fogo. Foi à poeira e à fumaça dos escombros, durante meses, muitas vezes sem respirador. No Brasil, o mesmo vale para o rescaldo, o desabamento e o incêndio florestal. Um estudo com 145 Bombeiros Militares de Belo Horizonte, publicado na Revista Vigiles do CBMMG em 2025, registrou que 92,41% relataram pelo menos um sintoma após exposição à fumaça de incêndio florestal. Já tratamos onde o N95 ajuda e o que ele não filtra e o limite térmico do EPI onde não existe chama.
2. A ciência já fechou a conta. Em 2022 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, reclassificou a exposição ocupacional do bombeiro para o Grupo 1, cancerígena para humanos, o mesmo grupo do tabaco e do amianto. O verbete completo está em IARC Monograph Vol. 132. No Brasil, a lista de doenças relacionadas ao trabalho do Ministério da Saúde já cita a fuligem.
3. O EPI contaminado é exposição que continua. A poeira que foi para casa na farda dos socorristas de Nova York é o mesmo problema de onde o bombeiro lava o EPI de combate e do protocolo de descontaminação.
4. Registre suas exposições. A conta de Nova York só pôde ser cobrada porque havia registro de quem esteve lá, quando e por quanto tempo. A Firefighter Cancer Support Network, entidade americana de apoio a bombeiros com câncer, recomenda que cada bombeiro mantenha um diário pessoal de exposições: data, tipo de ocorrência, tempo, EPI usado. É um caderno. Custa nada e vale muito numa perícia vinte anos depois.
Nada aqui substitui o procedimento operacional padrão nem a orientação do serviço de saúde da corporação. O que o caso americano oferece é o critério: o “está tudo bem” que se ouve na cena não é laudo. A máscara não espera o laudo.
Para lembrar
Em 2020 publicamos a história dos 343 e das sequelas dos sobreviventes. Naquele texto, escrevemos que o número de mortos por doença já superava o do dia do atentado. Em 2026, com os documentos abertos, sabe-se também que parte dessa conta era evitável.
343 no dia. 438 depois. E a cerimônia de setembro seguirá acrescentando nomes.
Referências
- Prefeitura de Nova York. 25 Years Later, Mamdani Administration Opens City’s 9/11 Records to the Public and Settles Multi-Year Legal Battle. Comunicado oficial, 8 set. 2026. Portal: sept11documents.cityofnewyork.us.
- CNN. NYC Mayor Mamdani releases 9/11 records showing officials misled New Yorkers about air quality around Ground Zero, 8 set. 2026; What we know about NYC’s newly released 9/11 records revealing officials misled public about air safety, 9 set. 2026.
- Al Jazeera. Mamdani releases records on toxic air in New York after 9/11 attacks, 8 set. 2026.
- Fox News. 9/11 documents challenge claims Ground Zero air was safe to breathe, set. 2026 (memorando de 28/02/2002 e medições na escola Stuyvesant).
- EPA Office of Inspector General. EPA’s Response to the World Trade Center Collapse: Challenges, Successes, and Areas for Improvement. Relatório 2003-P-00012, 21 ago. 2003.
- FDNY. FDNY holds 2026 World Trade Center Memorial Wall Plaque Dedication, 2 set. 2026. NY1, FDNY adds 36 new names to memorial wall 25 years after 9/11, 3 set. 2026.
- World Trade Center Health Program (CDC/NIOSH). External Quarterly Program Summary, dados até 30 jun. 2026, tabelas 38 a 41.
- Scientific American. 25 years after 9/11, survivors are still getting sick. Here are the numbers, set. 2026.
- The Guardian. Ex-EPA head admits she was wrong to say post-9/11 air was safe, 10 set. 2016.
- SILVA, R.A.; PAIVA, M.J.N.; MARTINS, I. Percepção de risco à saúde e exposição ocupacional aos incêndios florestais em Bombeiros Militares de Belo Horizonte-MG. Revista Vigiles (CBMMG), v. 8, n. 1, 2025. DOI 10.56914/vigiles.v8n1a12.
- IARC. Occupational Exposure as a Firefighter. IARC Monographs, v. 132, 2023.
Perguntas Frequentes
P: O que os registros liberados por Nova York em 2026 mostram?
P: Quantos bombeiros do FDNY morreram por doenças ligadas ao 11 de Setembro?
P: O ar do Ground Zero era seguro para respirar?
P: Quantas pessoas adoeceram por causa do 11 de Setembro?
P: O que o Bombeiro Militar brasileiro pode aprender com o caso?
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