Bateria de scooter elétrica: flashover em 30 segundos
A primeira coisa que apareceu foi fumaça, saindo da scooter parada no quarto. Nenhuma chama. Cerca de 20 segundos depois, o gás da bateria explodiu e as janelas estouraram. Em até 30 segundos, o cômodo entrou em flashover, o momento em que tudo o que pode queimar ali pega fogo de uma vez. Em até 40 segundos, a chama já saía pela janela.
A cena foi montada de propósito e medida com instrumentos. É um ensaio do Fire Safety Research Institute (FSRI), o instituto de pesquisa de incêndio do grupo UL, feito com o Corpo de Bombeiros de Nova York (FDNY). O artigo revisado por pares saiu na revista Fire Technology em 1º de março de 2025, em acesso aberto, e o FSRI publicou o resumo oficial em 1º de maio de 2025.
Nova York tinha motivo para entrar no estudo. Em 2023, a cidade registrou 268 incêndios com aparelhos de mobilidade elétrica, com 150 feridos e 18 mortos, segundo o FSRI. No país inteiro, uma análise do NIST, o instituto de padrões e tecnologia do governo americano, estimou em março de 2026 cerca de 198 mil incêndios de bateria de lítio em edificações desde 2011, e avisou que a subnotificação é grande.
Bateria de scooter elétrica pode explodir? O que o ensaio mediu
O veículo era uma scooter elétrica com assento, de um passageiro, parecida com uma moto pequena, de 66 a 74 kg. A bateria de 1,2 kWh ficava embaixo do banco, conforme o artigo do FSRI. Uma nota preliminar do instituto, de novembro de 2022, conta 136 células de lítio lá dentro. Essa nota trazia tempos um pouco diferentes. Os números deste texto são os do artigo revisado.
Precisa ficar claro como a bateria falhou. Foi ensaio de abuso. Os pesquisadores aplicaram 157 volts direto no cabo de carga, com corrente limitada a 10 ampères, e contornaram o circuito que protege a bateria. Sobrecarga intencional, para forçar a fuga térmica: a bateria começa a esquentar sozinha e não para mais. No teste da scooter inteira no laboratório, a sobrecarga levou cerca de 1 hora e 50 minutos até a fuga térmica.
Por isso o relógio dos 30 segundos começa tarde. Ele parte da primeira fumaça visível, quando a fuga térmica já está em curso e a bateria já solta gás.
A casa era térrea, construída para ser queimada, com portas e janelas externas fechadas. A scooter ficou num quarto de porta fechada.

O resumo do FSRI conclui que, numa scooter com assento, o intervalo entre o gás visível e a explosão pode ser de poucos segundos, o que torna o cômodo de origem imediatamente fatal para quem estiver dentro.
Para ter uma régua: numa sala com mobília moderna, os ensaios da UL publicados em 2012 mediram flashover em menos de 5 minutos depois da ignição. No quarto da scooter, a conta coube em meio minuto, contada a partir da fumaça.
Fumaça branca de bateria é gás que ainda não queimou
Um relatório da UL sobre bateria estacionária de casa, citado mais abaixo, chama de gás de bateria essa nuvem branca ou cinza. É gás que ainda não queimou e que pega fogo com facilidade. Ele se acumula no cômodo, e a explosão pode vir antes de qualquer chama à vista.
O teste com a scooter queimando no laboratório, fora da casa, mostra a velocidade. A chama veio 13 segundos depois da primeira fumaça, com uma bola de fogo que engoliu a scooter e, logo em seguida, um jato de chama de cerca de 2 metros acima da bateria. Do começo da subida, quando a liberação de calor passou de 20 quilowatts, até o pico de cerca de 1,6 megawatt, foram 10 segundos.
O artigo compara esse fogo com o de uma poltrona estofada de um lugar e o de uma scooter a gasolina de 50 cilindradas. Poltrona, scooter a gasolina e scooter elétrica guardam quantidade parecida de energia. O que deixa a elétrica mais perigosa é a velocidade: o fogo da bateria cresce quase na hora.
No segundo cenário da casa, a scooter ficou na sala, num ambiente aberto e com a porta de um quarto aberta. O volume maior diluiu o gás, e a pressão subiu menos. Mesmo assim, em até 10 segundos de gás visível sem parar, ele pegou fogo, e a pressão arrebentou esquadrias e vidros da sala, da cozinha e do quarto aberto.
Na chegada da guarnição: a analogia com a bateria estacionária
O resumo do estudo da scooter traz os tempos e não traz conduta de combate. As considerações táticas mais próximas vêm de outro trabalho, e é preciso dizer qual.
Em 4 de dezembro de 2023, a UL Solutions e o FSRI entregaram à IAFF, a associação internacional dos bombeiros, um relatório sobre incêndio em bateria estacionária residencial, a que guarda energia dentro de casa. O ensaio usou três módulos de 17 kWh numa garagem para dois carros: uma bateria umas 40 vezes maior que a da scooter. Entra aqui como analogia, e só como analogia.
O relatório afirma que o risco de explosão começa no instante em que a bateria entra em fuga térmica e solta gás sem queimar, e que pode se formar antes de qualquer sinal externo. A fuga térmica sem fogo pode aparecer como gás branco ou cinza saindo da estrutura em nuvens baixas. Nenhum indicador visual, de câmera térmica ou de detector portátil de gases confirma com segurança a bateria envolvida num incêndio de cômodo. Na garagem, o maior risco de explosão para o bombeiro fica no acesso de veículos em frente à garagem e em portas, janelas e outros pontos de ventilação, e a viatura não deve parar em frente ao portão. Com suspeita de fuga térmica, o documento pede EPI de combate completo e equipamento autônomo de proteção respiratória antes do reconhecimento, e linhas posicionadas e carregadas antes de ventilar ou entrar.
O ensaio da scooter bate com isso num ponto. No quarto fechado, quem abriu a ventilação foi a própria explosão. Segundo o artigo, a janela quebrada ligou o quarto ao ar de fora e deu ar suficiente para o flashover, mesmo com a porta do quarto fechada.
É pesquisa americana, com casa e equipamento americanos. A doutrina e os procedimentos da sua corporação prevalecem. Os riscos gerais de gás, calor e eletricidade estão em incêndio em bateria de lítio, e o mesmo gás, em escala de carro, aparece no alerta do FSRI sobre manta anti-fogo em veículo elétrico.
O detector de fumaça toca antes da chama?
Na maior parte das vezes, tocou. O NIST publicou na revista Fire Safety Journal, em 26 de março de 2026, dez ensaios com outro veículo: o patinete elétrico em que se anda de pé, com bateria de 281 Wh, cerca de quatro vezes menor que a da scooter do FSRI. A fuga térmica foi provocada por um aquecedor colado nas células, num quarto de 3,66 por 3,66 metros com uma porta só e três detectores fotoelétricos no teto.
Dos 29 acionamentos de detector nos dez ensaios, 22 vieram antes da ignição da bateria. São 76% dos acionamentos. Num dos ensaios, o primeiro alarme só tocou 15 segundos depois da ignição. Os autores concluem que um detector fotoelétrico perto do patinete, e funcionando, pode avisar antes que a fuga térmica vire fogo fora do veículo, e dizem que falta confirmar o resultado com outros aparelhos e outros cômodos.
Outro estudo do FSRI testou o chuveiro automático (sprinkler) residencial com a scooter com assento. O artigo saiu na Fire Technology em 4 de outubro de 2025, e o resumo do instituto, em 18 de fevereiro de 2026. Em todos os ensaios, o sistema, projetado e instalado conforme a norma americana NFPA 13D, impediu o flashover e parou a propagação para os outros objetos do cômodo depois de acionar.
Onde e quando carregar bicicleta e patinete elétrico em casa
O FSRI reúne a orientação ao público na campanha Take C.H.A.R.G.E. A ficha de outubro de 2025 e o site da campanha dizem o seguinte. Aparelho grande, como bicicleta elétrica, se carrega fora de casa quando der, e nunca no caminho de saída. Não se carrega aparelho grande durante a noite. Usa-se só o carregador que veio com o produto, sem modificar bateria nem carregador. A bateria fica longe de temperatura extrema, sol direto, saídas e qualquer coisa que queime.

A ficha lista os sinais de alerta: bateria inchada, furada, quente demais, mudando de cor ou de forma, chiado, estalo, cheiro estranho. Apareceu um deles, o aparelho sai de uso. O site acrescenta que fumaça branca ou cinza indica perigo imediato de fogo. Aí a ordem é sair de casa e ligar para o 193. Desde o primeiro sinal de problema, avisa a campanha, pode haver menos de um minuto para escapar.
Referências
- FLEISCHMANN, C.; WEINSCHENK, C.; MADRZYKOWSKI, D.; SCHRAIBER, A.; GAUDET, B. Quantifying the Fire Hazard from Li-Ion Battery Fires Caused by Thermal Runaway in E-scooters. Fire Technology, v. 61, p. 2865-2887, online em 1º mar. 2025, acesso aberto. DOI 10.1007/s10694-025-01707-z.
- FSRI. Journal Article Quantifies the Fire Hazards of Lithium-Ion Battery Fires Caused by Thermal Runaway in E-Scooters, 1º maio 2025. Página do FSRI.
- FSRI. Experiments Completed for Intentional Thermal Runaway on Lithium-Ion Batteries, nota preliminar, 10 nov. 2022 (citada só pelo número de células; os tempos deste texto são os do artigo de 2025). Página do FSRI.
- MADRZYKOWSKI, D.; FLEISCHMANN, C.; WEINSCHENK, C. Examining the Impact of Residential Fire Sprinklers on e-Scooter Fires Initiated by Thermal Runaway of Li-Ion Batteries. Fire Technology, v. 61, n. 7, p. 5753-5772, online em 4 out. 2025. DOI 10.1007/s10694-025-01808-9.
- FSRI. Journal Article Examines Impact of Residential Fire Sprinklers on E-Scooter Fires Caused by Thermal Runaway of Lithium-Ion Batteries, 18 fev. 2026. Página do FSRI.
- MENSCH, A. et al. Smoke production and detection from lithium ion battery powered e-scooter fires in a compartment. Fire Safety Journal, v. 162, 104780, online em 26 mar. 2026. PDF no NIST.
- SCHRAIBER, A.; BAROWY, A.; GAUDET, B.; KIMMERLY, V. Considerations for Fire Service Response to Residential Battery Energy Storage System Incidents. UL Solutions, preparado para a IAFF, 4 dez. 2023, sumário executivo. PDF.
- NIST. Understanding the Risk of Lithium-Ion Battery Fires: multi-source data analysis. Technical Note 2365, mar. 2026. DOI 10.6028/NIST.TN.2365.
- KERBER, S. Analysis of Changing Residential Fire Dynamics and Its Implications on Firefighter Operational Timeframes. Fire Technology, v. 48, 2012. PDF no FSRI.
- FSRI. Fact Sheet: Take C.H.A.R.G.E. of Battery Safety, out. 2025. PDF. Site da campanha, consultado em 23 set. 2026: batteryfiresafety.org.
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Texto informativo, baseado em pesquisas feitas nos Estados Unidos. Não substitui a doutrina, o POP nem as instruções da sua corporação, nem a orientação do fabricante do aparelho. Data da verificação: 25 de setembro de 2026.
Perguntas Frequentes
P: Bateria de scooter elétrica pode explodir?
P: Quanto tempo leva um incêndio de scooter elétrica dentro de casa?
P: Saiu fumaça branca da bateria do patinete. O que fazer?
P: Onde e quando carregar bicicleta ou patinete elétrico em casa?
P: Detector de fumaça avisa incêndio de bateria de lítio?
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